28 de fev de 2007

Fragmentos 1

"Famílias...!" -- disse com ódio. -- "Ora, as famílias são o ninho da mais silente loucura, aquela que é indizível e encontra no berço dos cuidados familiares o seu lugar". Mal conseguia respirar, bufava, enquanto cuspia seu discurso regado a perdigotos. "Famílias destroem o homem, que faz muito bem em fugir da sua o quanto antes!". A criança que olhava para ele do berço não compreendia nada, mas não chorava. Pelo contrário, divertia-se perplexa, como se soubesse que aquilo era uma brisa morna de sanidade entre a silenciosa loucura dos seus. Mas não. Era apenas um bebê, e sabia do que os bebês sabem. Não sabia do que não precisava saber, mas seria tão louco quanto os seus quando chegasse o momento. Famílias são mesmo berços de loucura, pois todos precisam fingir que são sãos -- mesmo quando não o são.

Um fragmento que me surgiu enquanto lia O Grande e o Pequeno, de Rubem Fonseca.

Quero aproveitar para dizer que o trabalho feito pela galera do Portal Literal é bacana pra cacete!

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27 de fev de 2007

Coisas a resolver...

Tenho que fazer logo a "reforma" do Alriada Express (atualizar o template para o blogger novo, ajeitar tudo para ele ficar "no jeito") e voltar a fazer os posts "alriádicos" (como este, e este) por lá. Já estou incomodado em ter transformado meu blog de arte, cultura, literatura e música em um palanque para minhas idéias sobre o mundo e sobre a blogosfera e a internet -- eu criei o Caderno do Cluracão justamente para ter um espaço longe do Alriada e de seus papos e para falar de outras coisas que me interessam por vezes até bem mais...

Então está resolvido. Vou descansar um pouco e depois, mãos à obra na reforma do Alriada Express.

Nisso, em uma "rebelitude" bem duendesca, o post continuando a conversa sobre os probloggers fica para depois. Para quem quer acompanhar o andamento do papo, rolaram umas conversas interessantes por aqui e por aqui.


UPDATE:

Finalmente, depois de algumas horas lutando contra a lentidão da minha internet (2mbps do Virtua para essa lentidão toda!?), contra o engessamento do sistema novo do blogger, contra o sono e contra a falta de criatividade (eu quero voltar para os meus contoooooos!!!), finalmente consegui colocar o Alriada Express "no jeito" para voltar a funcionar. Enfim, as blogadas de lá vão para lá e as de cá serão as donas do pedaço aqui!

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A loucura nossa de cada dia.

Mais um post que bem podia ter ido para o Alriada, se este não estivesse marcado para reformas.

Um estudo da OMS indica que aproximadamente um em cada seis habitantes do planeta sofre de algum tipo de distúrbio neurológico. Por outro lado, o Instituto de Psiquiatria do King's College de Londres afirma que um em cada três britânicos sofre de "paranóia ou desconfiança excessiva". Será que agora começa a fazer sentido quando eu falo que esta civilização está deixando as pessoas doentes da alma?

Ao menos os holandeses estão sacando que ouvir vozes na cabeça dando conselhos e fazendo observações não é nada de fora do normal. Mas, o que dizer de um mundo em que dão ketamina para as pessoas e depois se surpreendem que elas tenham sacudido a depressão?


Em uma civilização doente e tola como esta, ainda acham estranho quando digo que prefiro conversar com fadas?

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A leitura do direito de resposta de Brizola na Globo em 94 foi o primeiro pseudo-podcast do Brasil.

26 de fev de 2007

Manual de Auto-Publicação na Rede -- será que rola?

Depois de uma conversa que começou aqui, e desembocou aqui, começamos a pensar na possibilidade de se escrever um Manual de Auto-Publicação na Rede para Músicos e Músicas Independentes. A pergunta não é apenas se rola de se escrever este manual, mas também como ele deve ser, o quê ele deve conter e principalmente quem está disposto a meter a mão na massa para fazer esse trampo.

Eu estou dentro, naturalmente. Quem mais vem junto? Basta se agregar no papo que está rolando lá no Overmundo, ou dar algum outro tipo de sinal de vida. O Valdir Batone, cara batuta, já está divulgando o papo também no site de sua banda (igualmente bacana) Lixo Extraordinário. Em homenagem a isso, a foto que ilustra o post (que é da autoria de Gabriela de Andrade) foi também retirada do site deles.

Muito mais me interessa fazer o que é bom e bacana do que discutir o que é ruim.

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qualé a tua tribo, cara pálida?

Quando vejo um negócio desses, me vem um trecho de uma música do Legião Urbana à cabeça:
"...Ah, se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo
Também saberia qual é a minha, mas você também não sabe
E o que é que eu tenho a ver com isso?

Ah, se eu soubesse lhe dizer o que fazer pra todo mundo ficar junto
Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso?

Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados"

É tão triste que algumas pessoas baseiem suas revoluções na paranóia, no ódio e na desunião. Não é a toa que quase todo velho revolucionário se torna um velho amargo, frustrado e solitário, isolado dentro de sua furiosa insatisfação. Revolução feita com ódio é apenas loucura, é uma busca tão feroz de mudança que não agrega ninguém -- pelo contrário, afasta e aliena -- e te leva a um mundo só seu onde você não quer a companhia de ninguém, e ninguém quer mesmo estar junto de você.

"Quando se aprende a amar
o mundo passa a ser seu..."

Não sou inimigo, mas tenho preguiça de quem não sabe reconhecer seus aliados por trás das roupas e dos cheiros. Talvez eu seja apenas um poeta, ou um idiota. Mas não tenho paciência para o ódio, nem tenho tempo para os discursos furiosos. Tenho umas fábulas a escrever e amigos a amar, e um mundo todo meu para cuidar.

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25 de fev de 2007

o encanto da princesa desencantada

Hoje me fizeram uma proposta de montagem teatral da minha fábula "A Princesa Desencantada". Levei um susto, pois a pessoa que propôs ouviu apenas uma sinopse da história. A fábula me parece estar sempre tão longe de estar pronta quando me debruço sobre ela... e agora eu tenho que colocá-la pronta de alguma forma para que seja montada para o teatro? É emocionante e um bocado desconfortável, pois sinto-me desconfortável com aquela fábula...

Mas a gente faz o que pode em nome da arte, né? Vou fazer o possível para que ela esteja pronta para ser montada o quanto antes...

Enquanto isso, sinto-me em pesada dívida comigo mesmo por não ter tido tempo de mergulhar nos meus escritos nos últimos dias. Mas, a gente faz o que pode né?


UPDATE:
Trabalhei um bocado com novas anotações, novas idéias que surgiram nas recontagens da história da Princesa Desencantada. Surgiu um novo final, um novo meio, um novo ambiente, a história cresceu e ganhou um significado totalmente diferente. Em suma, estou reescrevendo a fábula do zero, mas finalmente ela fez sentindo -- completamente -- para mim.

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23 de fev de 2007

que papo é esse de "blogueiro profissional"?

O André Oliveira, do blogue Marmota (agora parte integrante do "Shopping Center de Blogs" Interney Blogs), teceu umas considerações bem interessantes sobre essa coisa de blogueiro profissional:
"O que me assusta é saber que esse rótulo transforma as pessoas. Preocupadas com resultados, acabam se levando a sério demais.

Ser "blogueiro profissional" (ou "problogger", que é bem mais legal) é escrever pensando nos números. Nada contra essa prática: quero mais é que todos que procuram esse caminho transbordem a conta bancária. Agora, com tanta gente em busca das mesmas coisas, tenho uma visão muito pesada sobre o futuro da "blogosfera", caso ela "amadureça" por esse viés: isso aqui está se transformando em uma Serra Pelada, com gente demais se acotovelando atrás de alguns tostões."

O André também fala de algumas vicissitudes desse papo de ser blogueiro 'profissa':
"Então cá estou, blogueiro profissional, buscando formas de "monetizar" meu conteúdo; adotando todas as regrinhas de "Search Engine Otimization" para fisgar consumidores; patrulhando os aproveitadores - afinal de contas, além de ser assinado, conteúdo semelhante na rede atrapalha meu posicionamento no Google. Sem essa de compartilhar idéias só para conhecer gente nova ou simplesmente para marketing pessoal: agora, eu quero é ganhar dinheiro. Vou justificar minhas ações na cartilha da ética (e outras totalmente justificadas), mas vou seguir mesmo a lei da selva. E salve-se quem puder.

Tenho medo disso. É o mesmo discurso atribuído a outras áreas competitivas (no caso dos "jornalistas", é exatamente igual)."

E é aí que o cara pegou o espírito da coisa. Quem quer que a profissão -- ops... que o ofício -- de blogueiro se transforme em algo parecido com todos os outros ofícios que perderam a arte e viraram uma coreografia de cachorro comendo cachorro em luta por migalhas? Deste jeito, quem é que quer ser blogueiro profissional? Se eu me recusei a me tornar profissional em qualquer coisa que fosse, justamente para fugir desta mentalidade terrível que acompanha a alcunha, a profissionalização blogueira não faz então nenhum sentido.

Blogs são, como diz a própria apresentação do Interney Blogs "páginas dinâmicas e democráticas - qualquer internauta razoavelmente alfabetizado pode criar o seu). Além disso, possuem linguagem mais informal, interação maior com os leitores (clique aqui para deixar seu comentário!) e dão a seus autores liberdade para escrever o que quiserem, quando quiserem e como quiserem, desvencilhados de limites de caracteres, pautas pré-determinadas e deadlines.". Para se blogar, tem-se que ser igualmente dinâmico, desvencilhado de todas as amarras físicas ou mentais que apodrecem os mercados e as redações jornalísticas e, sobretudo, ter muito tesão por falar e conversar. Estas coisas não se profissionalizam. Então, vá lá, ganhar dinheiro com seu blog -- como ganhar dinheiro com qualquer coisa que se faz com paixão -- é uma delícia. Mas se tornar blogueiro profissional, com todas as vicissitudes e horrores do termo, é coisa de gente que não sabe o que está perdendo -- a própria alegria e liberdade que são a essência do blogar.

UPDATE PICANTE:
Decidi recolocar as frases finais do texto, que havia retirado anteriormente. No dia em que eu tiver que ter papas na língua sobre o que penso, é hora de parar de blogar. As frases eram:
"Se a atividade blogueira começa a obedecer a exigências de mercado, opiniões dominantes dos 'grandes', desígnios dos anunciantes, desejos da burguesia de atenção blogosférica e coisas afins, qual seria a sua diferença em relação às profissões de jornalista e publicitário? Nada contra os jornalistas e publicitários, conheço alguns deles que são fantásticos (curiosamente, a familia Bicarato é rica neles), mas eu sou blogueiro -- blo-guei-ro! -- e como tal gosto de acreditar que a atividade blogueira é como eu, livre pra pensar, falar e fazer o que achar que é certo, sem obedecer a mercados ou idéias nefastas do velho mundo que morre. Blogar é arte, ou então não me chamo mais de blogueiro."

Pronto. Falei. Agora posso seguir desopilado para posts mais leves...

Abraços do Verde


P.S. Em tempo, parabenizo o Edney véio de guerra e toda a galera do Interney Blogs pela proposta e pelo sucesso, e espero que todos eles ganhem tanta atenção, comentários e grana quanto merecem e quiserem ganhar. Só não gosto da idéia de que, para ganhar grana ou ter sucesso (seja lá o que isso significar), um blogueiro tenha que ser alguma coisa diferente do que naturalmente é -- um pensador que vive entre dois mundos e que auto-publica seu pensar e sentir nas teias da rede digital, para os olhos, mentes e corações da rede humana na qual vive.


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Entrando no BlogBlogs (+ Viva, o technorati me viu!)

Segundo um post do BrPoint.net, o serviço de agregação de blogs BlogBlogs é o mais próximo que temos, no Brasil, a um Technorati. Como eu sou bem chegado nesse tipo de coisa, resolvi fazer meu cadastro lá e clamar meus blogs, só para experimentar.



Aliás, estou aproveitando este post para provar para eles que sou eu que manda aqui.
Vamos ver se funciona...

Espero que ao menos o BlogBlogs seja mais esperto que o Technorati e perceba que SIM, EU ESTOU BLOGANDO aqui! :D

BlogBlogs.Com.Br


UPDATE 24/02:
Enfim, depois de publicar uma pequena reclamação no forum de ajuda do Technorati, site resolveu se aperceber de que o Caderno do Cluracão é um blog até bem ativo, e que tem gente linkando para cá (no momento ele acusa 21 links por 4 blogs segundo o próprio Technorati). Sentindo-me reconhecido em meu bloguinho de estimação, eu até já poderia dormir em paz. Mas é muito mais divertido trabalhar quando as coisas estão dando certo, então, por agora, fico por aqui trabalhando mais um pouco.

Em tempo, o BlogBlogs ainda tem muito o que crescer, mas é uma criança bonita e sadia, embora pareça sofrer de um sério caso de distúrbio de atenção.


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falando em auto-publicação...

Por falar em Os Seminovos, o Miguel Caetano do excelente blog Remixtures da blogosfera d'além mar (que fala sobre Cultura Livre, P2P, remix e colaboração) fez um post bem bacana falando da banda Zémaria (do Espírito Santo), e também comentando sobre o Mombojó e Os Seminovos -- todos do primeiro time da música independente auto-publicada na internet no Brasil. Deixei lá um comentário dando a ele o toque sobre o pessoal do Lixo Extraordinário e do Supercordas (e pedindo 'por favorzinho' para que ele não embarque na comparação não muito inspirada entre Os Seminovos e os Mamonas Assassinas, uma banda que cá entre nós era o ó do borogodó comercialesco).

Foi então que me toquei que isso é só a ponta do iceberg. Dá pra sentir que agora é o momento em que vai estourar (ainda bem) a prática da auto-publicação por parte das bandas independentes (sejam de rock, pop, metal, tecnobrega ou o escambau) na rede brasileira (e na portuguesa também). Sentindo o cheiro do momento, acho que é hora de surgir um manualzinho (ou muitos) de autopublicação para bandas independentes. Já falei pra mim mesmo (e pro meu irmão, e pro povo do overmundo) que pretendia me meter a escrever um manual desses, mas até agora estou só enrolando...

Vou ver se amanhã tomo coragem de meter a cara em começar a organizar isso.


p.s. por falar em Cultura Livre, existe um excelente texto sobre Cultura Livre e "Open Business Models" escrito pela Oona Castro (e cujo link não consegui enfiar no post por puro macarronismo redatorial).



UPDATE:

No blogue do Miguel Caetano há também uma lista das netlabels brasileiras e portuguesas (além de uma pá de blogadas legais sobre o assunto). Fiquei surpreso ao saber que já são tantas, e que já estão fazendo trampos tão legais. Viva a cultura livre! Viva a música e a arte independente! E agora, neste momento, viva a minha cama!


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a falta de sono e a macarronada de palavras...

Se eu não regular o meu sono e descansar mais, vou acabar ficando não apenas disléxico como também dislálico. Como se já não bastasse o macarronismo do meu texto quando não durmo bem (veja isso. e isso!?), desde ontem estou produzindo pérolas das frases mal formuladas até quando falo. É horrível!

Não vou dar exemplos.
Eu vou é dormir...

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É para lá que eu vou...

"Para além da orelha existe o som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto -- é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia -- é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou -- é para lá que eu vou."


(trecho de É para lá que eu vou, de Clarice Lispector
in
Onde Estivestes de Noite)

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22 de fev de 2007

sem comentários?

22 acessos até agora no dia de hoje,
mais 15 acessos ontem...
e nenhum comentário!?

Começo a desconfiar que, ou ninguém tem nada a dizer sobre meus posts, ou meu mecanismo de comentários não está muito visível. A pergunta pode soar meio estúpida mas, vocês estão vendo o link do mecanismo de comentários logo ao lado do meu nome e da data do post, no fim de cada blogada?

Estão? Então alguém fale alguma coisa, por favor.
É solitário blogar sem nenhum comentário...

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... as he were of faierie

"...His croket kembd and thereon set
A Nouche with a chapelet,
Or elles one of grene leves
Which late com out of the greves,
Al for he sholde seme freissh;

And thus he loketh on the fleissh,
Riht as an hauk which hath a sihte
Upon the foul ther he schal lihte,
And as he were of faierie
He scheweth him tofore here yhe..."

Trecho de uma poesia de John Gower (se não me engano, Confessio Amantis) que, segundo Tolkien em seu On Fairy-Stories (in Tree and Leaf, 1947), seria o primeiro registro escrito da palavra Fairy, ou Faërie. Mas estas duas palavras não querem dizer a mesma coisa, no fim das contas. Faërie é um lugar, traduzido pelo próprio Tolkien (que, lembremos, foi um dos maiores estudiosos das línguas anglo-saxônicas do século XX) como Fair Kingdom, ou o "Belo Reino" (A própria palavra Fair -- belo -- teria em sua origem o Faierie médio-inglês), ou Enchanted Realm, ou "Reino Encantado". Por sua vez Fairy poderia ser traduzido, a princípio, como a palavra para designar os habitantes, ou um tipo de habitantes, deste reino. Parece natural que a primeira referência ao lugar tenha surgido na língua inglesa antes da referência a seus habitantes, mas muitos tradutores confundem o penúltimo verso da poesia, traduzindo-o como "...as he were a fairy" ("como se ele fosse uma fada") mas não foi isso que Gower escreveu. O original "...as he were of faierie" se traduz literalmente como "...as he were of faërie" ("como se ele fosse de faërie/da terra encantada"), até porque a frase ficaria sem nexo ao ser traduzida como "...as he were of fairy" ("como se ele fosse de fada"). Logo, em seu primeiro registro escrito, a palavra não se refere a um ser ou pessoa, mas a um lugar -- O Lugar.

Pequenas (ou enormes) confusões como estas fizeram com que a palavra Faërie fosse quase completamente eclipsada na língua inglesa pela sua derivada Fairy, sendo inclusive confundida muitas vezes com um sinônimo ou grafia alternativa desta. Desta terrível forma, os seres encantados foram simbolicamente desprovidos de sua origem (e portanto de sua essência, e então de seu poder e magia) e confinados em um sem-lugar obscuro do mundo (ou pior, apenas do imaginário) do Homem. Até mesmo na wikipedia este engano é cometido, o que não chega a ser uma surpresa, infelizmente.

Não são as fadas ou seres encantados, mas é a Terra Encantada, que define essencialmente os Contos de Fadas (fairytales). Ou, melhor ainda, deveríamos sempre chamá-los de "Faërietales" (Histórias da Mundo Encantado), mas que não fazemos pois simplesmente não sabemos, muitas vezes, que esta diferença (e que esta terra) existe. Ainda segundo Tolkien (e eu concordo totalmente com ele), o que define as Histórias de Fadas ou Histórias do Reino Encantado é a Magia. Magia esta que é inerente primeiro à Terra Encantada, onde faz parte da natureza, e por conseguinte de seus habitantes, por serem parte desta natureza. É desta forma que, ao se perder a palavra (e portanto até mesmo a idéia essencial) da Terra Encantada, privamos os filhos desta terra de sua magia, ao transformá-los em uma parte misteriosa e alienígena de nosso próprio mundo (o qual também privamos dia a dia de toda a magia).

Na língua portuguesa, a questão é ainda mais séria. Não há, a princípio, uma palavra em nossa língua para designar a Terra Encantada. Eu disse a princípio, pois a palavra existe, mas vocês não acreditariam se eu vos dissesse qual é (e poucos sequer se lembram que ela tem este significado, embora nós a falemos com muita frequência). De qualquer forma, até mesmo o Fairy do idioma inglês recebe uma ambígua e insuficiente tradução como Fada -- uma palavra que mistura em sua construção uma série de referências que não a equivalem exatamente ao Fairy inglês e muito menos ao ylfe ou ao daóine-sidhe do velho mundo. Se os Fairy desterrados da língua inglesa tem ao menos o direito a ter dois sexos, as fadas são condenadas a ter apenas o sexo feminino e são ainda mais gravemente limitadas em seu escopo de significados e formas. Já a palavra para designar as "fadas do sexo masculino" é ainda mais estranha e inadequada (sim... estou criticando aquele que é meu nome, mas apenas como tradução correta para o Fairy masculino). Vejo isso com um certo assombro, pois as terras ibéricas eram ricas em... errr... fadas e duendes no seu imaginário, simbolismo e mitologia.

A língua e o pensar, o imaginar, andam juntos. Temos, portanto, que tentar recuperar não apenas as palavras certas para falar do Reino Encantando e do povo sutil e mágico que vive e vem de lá, como também reencontrar seus significados. Os filhos de Faërie, a Terra Encantada, agradecem.

Quando abrimos mão das palavras encantadas,
perdemos também os poderes da Subcriação e da Imaginação.
Pensem nisso.




p.s. para aqueles que ainda não sabem, algum dia conto qual é, segundo meus estudos, a única palavra sobrevivente na língua portuguesa moderna para designar o Reino Encantado. (curiosos? procurem em Nansen, In Northern Mists, ii, 223-30. dica de rodapé do próprio Tolkien).

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21 de fev de 2007

a soneca do Technorati

Até agora o Technorati (quem!?), este dorminhoco, não aquendou que existe vida no Caderno do Cluracão. Mesmo com mais de 20 pedidos de ping para o blog, até o momento deste post ele continuava dizendo que não havia nenhum movimento por aqui, e que ninguém jamais fez um link para cá.

Technorati, você não vai com a minha cara, meu nêgo?

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19 de fev de 2007

eu também curto Os Seminovos



"Não é fácil manter a franja lisinha
Tenho que fazer escova e chapinha
Mais difícil ainda é ver o mundo
assim do meu jeito:

O cabelo tampa o olho esquerdo
E eu só posso usar o direito!
Impossível...
Ser mais sensível que eu!..."

(primeira parte de "Eu sou Emo!", d'Os Seminovos)

Eu sei que estou atrasado. Afinal, sou tão distraído que posso nem me aperceber de que é Carnaval. Mas como nunca é tarde para se descobrir as belezas da vida, descobri (com a dica preciosa do Ronaldão Lemos, grande representante de Uberlândia no Overmundo e do Brasil no Creative Commons) o quanto Os Seminovos são legais.

Tá legal, vamos combinar que eles não fazem nada de tão novo musicalmente. Por outro lado, Os Seminovos são verdadeiramente inovadores (ou no mínimo vanguardistas) em seu inteligente marketing viral (via youtube, orkut, chats, etc...) e pela antenadíssima distribuição "as is" de seu primeiro album nos moldes mombojanos (pois lugar de músico ganhar grana é em cima do palco, porra!). Sem experimentalismos desnecessários, os caras fazem rock competente -- bem tocado, com bastante energia e sobretudo muito divertido -- em um tempo em que muita gente anda dizendo que o artigo anda em falta no mercado. Talvez estejam olhando pro mercado errado, pois assim como os Seminovos há muitas outras bandas fazendo coisa muito boa (1, 2, 3...) fora do eixo Rio-Sampa, e até mesmo dentro dele. O lance é saber procurar, e não fazer que nem eu (e deixar o carnaval passar).

Mas como estou atrasado pra falar do Seminovos (que, ao que parece, todo mundo já havia descoberto menos eu -- ainda bem pra eles!), não vou ficar aqui chovendo no molhado. Escutem os caras. É divertido, é rock, é coisa nossa (até pq 'Berlândia é "logo alí" de Brasília), e é legalzão!

O site dos caras fica aqui.


Vou voltar ao meu conto balançando a cabeça ao som dos caras,
e volto quando tiver algo mais a dizer...



p.s. para ver os outros clipes dos caras no YouTube, basta dar uma chegada no perfil deles no site.

p.p.s. a Canção de Depressão deles merecia um post à parte. ("se você anda deprimido / mas que coisa demodê / eu tenho um mundo colorido / na farmácia pra você / a dor forte de perder uma paixão / não vai te incomodar / o emprego que só causa frustração / você vai passar a amar / fluoxietina, sertralina, citalopran / paroxetina, metazodona, conazepan / pra dormir bem à noite e acordar de manhã / bem melhooooooooooor...")

p.p.p.s. quer saber? você sabe que encontrou uma banda de rock realmente boa quando, na primeira vez que você a escuta, tem a impressão momentânea de que achou a melhor banda do mundo. A banda de rock que não for ao menos por algumas horas da sua vida a melhor banda do mundo pra você, não vale a pena. Os Supernovos são, ao menos até a zero hora de amanhã, a melhor banda de rock do mundo pra mim. Pronto! :D

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O mundo (NÃO) é dos distraídos...

Acabei de descobrir que o mecanismo de comentários o Blogger.com (este bonitinho que fica aí em baixo, logo ao lado do meu nome, no fim de cada post) aceita comentários de não-usuários do Blogger.com também. Sim, isso era mais do que óbvio, eu sei, pois não fazia o menor sentido que ele funcionasse apenas para usuários do Blogger. Mas, mesmo assim, eu não sabia disso (e por isso mesmo coloquei o segundo mecanismo de comentários).

Vamos fazer assim então? De agora em diante, usem apenas o primeiro mecanismo, o original.
Daqui a pouco eu colo todos os comentários feitos no segundo mecanismo (o do backblog) para o primeiro, e acabo com o mecanismo alternativo desnecessário.

Desculpem-me a enorme distração.
Não foi a pior "pastelada" que eu fiz nestes últimos tempos, eu juro. :D


UPDATE:
Já transcrevi todos os comentários feitos no mecanismo "alternativo" para o sistema principal de comentários. Por sorte, eram poucos. Esta é uma das poucas coisas boas de se ter um blog novo que ainda é pouco visitado: geralmente é fácil corrigir os erros e fazer os ajustes necessários. Nem preciso falar -- pois acredito que vocês já tenham percebido -- que já retirei também o mecanismo alternativo de comentários. É mais óbvio ainda que os novos comentários devem ser feitos no... único mecanismo que sobrou. Não se acanhem. Ele é do Blogger, mas é amiguinho. :D

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"O último engano" e "Seu Segundo"

Estou debruçado sobre dois contos. Um, sobre o qual já comentei no post anterior, fala de um suicida que manda seu último desabafo para o email errado, desencadeando uma série de acontecimentos. O segundo, que comecei agora, trata de um homem atormentado pela correria do dia a dia que, de repente, torna-se dono de um pouco de seu tempo.

Não vou falar nada mais sobre eles agora. Falar demais esvazia o tesão. Vou mergulhar na escrita e mais tarde, quiçá, vocês verão algum deles pronto por aqui e pelo Overmundo.


p.s. os dois últimos contos da trilogia Transgressão-Agressão-Redenção ainda estão no forno também, mas não estou botando a mão neles neste momento, para não carregar demais no vinagre e na pimenta.

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18 de fev de 2007

o último engano...

Limpando SPAM de minha caixa de email com uma pá, e pensando em todos os emails que já enviei para os destinatários errados por distração ou embriaguez, me ocorreu uma idéia de um conto que é no mínimo interessante...

Pensem em uma pessoa que pretende se matar, e em seu desespero resolve mandar um último email, um misto de pedido de socorro com carta de suicida, para uma certa pessoa. Só que em seu desespero, ele acaba digitando o endereço errado e o email vai para uma pessoa que ele nem conhece. Recebendo o email, a pessoa (que também não está muito de bem com a Vida) a princípio pensa que é uma coisa sem pé nem cabeça e quase o deleta, mas termina por lê-lo e se identifica com aquelas angústias. De repente, em um átimo, ela resolve responder o email.

O que será que acontece então?
Se eu escrever o conto, vocês saberão da minha versão.
Mas é claro que adoraria saber que fim vocês dariam para a história, meus queridos... errr... 3 leitores. :D


p.s. a Manga Fells disse que já existe um conto muito parecido com este. Ela não sabe se é do Nelson Rodrigues ou do Luis Fernando Veríssimo. Parece ter alguma coisa a ver com um suicida que liga para um número aleatório na lista telefônica, ou coisa assim. Na arte e na vida muito pouco se inventa e quase tudo se recicla. Não há, então, grande supresa nesta coincidência, há? As questões (e o ridículo) humanos estão aí, para todo mundo ver, sentir e criar a respeito. E eu juro que nem sabia do conto do Nelson/Veríssimo sobre o tema quando tive esta idéia... :)

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E por falar em batucada...

saudades da Brasília que eu queria ter curtido muito mais...



Tico no derbak, Paulina no violino e Felipe no triângulo -- todos da boa gente do Seu Estrelo e o Fuá de Terreiro -- brincando no Balaio Café, lá em Brasília.

Há tanta coisa boa e bela acontecendo
enquanto a gente não olha...
Quando eu voltar para Brasília,
quero estar mais junto deste povo.

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Banda da Miguel Lemos, pelos olhos de um brasiliense que não samba.

Eu não nascí no samba, minha gente. Não vou fingir. Eu não nascí no samba. Mas (isquindô isquindô) dizem por aí que o tambor tem até o poder de levantar os mortos. Talvez seja verdade, pois foi mais ou menos isso que aconteceu comigo.

Estava eu a beira de uma crise nervosa, por excesso de trabalho, excesso de coisas na cabeça, excesso de cigarros, excesso de gripe e de preocupações e falta de sono, quando a batucada começou lá embaixo. Imerso em meu mundinho particular, fiz ouvidos moucos ao chamado de Momo e continuei com meu draminha particular. Mas quando, depois de um jantar sonolento, meus tios resolveram descer para ver o bloco, resolvi descer também. Dei para mim mesmo a desculpa de que precisava comprar mais cigarros, e fui.

Que coisa impressionante é um carnaval de rua! Tá, tudo bem, isso é óbvio para qualquer um seja acostumado com eles. Mas este que vos escreve, criado no mundinho de cobogós da Asa Sul de Brasília e no mundinho tuntistum-ei-ei escuro e estranho do rock da Capital, não conhecia. Já havia me maravilhado com o Maracatu do Seu Estrelo e com rodinhas de samba em botequinhos brasilienses, mas não sabia ainda o que era um carnaval de rua (e, não, o Pacotão cruzando a Asa Sul nem se compara com isso aqui).

À volta do carro de som tinha de tudo, gringos e garis (verdadeiros ou fantasiados), putas e cocotinhas, criança, cachorro, gambé e batedor de carteira, gente de tudo que é tipo, gente que sabe sambar ou que não sabe que não deveria tentar, todos no mesmo lugar. E a energia da batida? Quando a batucada subia ao início de cada música, mesmo sendo feita por uns poucos tambores, era uma energia louca. Quando um dos caras que estava puxando o samba no carro de som gritou "Acooorda gente, que é Carvanal!", aquilo me tocou. Porra, e não é mesmo? Eu estou no Rio de Janeiro em pleno Carnaval e ainda não tinha acordado pra isso. E a mágica se fez. O que todos os remédios para a gripe e todas as tentativas de dormir e descansar, e todas as frustradas tentativas de me distrair não haviam conseguido, aquela batucadinha conseguiu. Eu me sentí em paz.

Andando por entre as gentes coloridas ou não, fantasiadas ou não (e nem sempre era fácil saber a diferença), eu curti um bocado a paz de espírito (é, isso mesmo, paz de espírito) que uma boa batucada de rua pode trazer. Fragmentos alegóricos de escolas de samba já desfiladas se misturavam com banhistas tardios que emendaram a praia com o samba, e enquanto um bloco batucava daqui -- surpresa -- surge um outro bloco na outra esquina. Agora vejam bem, eu crescí em uma cidade onde um bloco carnavalesco é quase um acontecimento. Ver dois blocos, das centenas que acontecem só na Zona Sul do Rio, se cruzando, foi impressionante. As batucadas antes distintas pareciam se compor em uma terceira música, e os foliões dos dois blocos se misturavam e pareciam fazer parte de uma coisa só, por alguns momentos. E então o outro bloco seguiu enquanto a banda da Miguel Lemos continuou no mesmo lugar, mas alguma coisa da Miguel Lemos foi com o bloco que passou, e alguma coisa dele ficou aqui. Não sei se foram apenas delírios de um brasiliense impressionado com o carnaval de rua da esquina de casa no Rio, mas há hoje uma magia no ar deste lugar.

A cena da noite, que ainda esperava por mim enquanto eu voltava pra casa no contrafluxo do bloco que passava, foi a de um folião mascarado e tatuado domando o trânsito de uma Avenida Nossa Senhora de Copacabana engarrafada e de uma Miguel Lemos semi-interditada para abrir alas para o Carnaval passar. Foi tão impressionante, que por pouco não escrevo este post inteiro só sobre esta cena e a impressão que ela causou em mim. Agora, em casa, abatido demais pela gripe para continuar lá embaixo, já com meus cigarros comprados, só me faço duas perguntas: Primeiro, porquê diabos eu não ando com minha câmera quando vou a estes eventos? Segundo, como é que eu pude ignorar tudo isso acontecendo debaixo da minha janela o dia todo?

Por vezes nos fechamos tanto em nossos mundinhos que, mesmo que o Carnaval aconteça à nossa volta, a gente nem nota. Que ridículos podemos ser, não?


Boa folia para todos!
E amanhã, se a gripe ajudar, vou sair caçando outro bloco, agora sim, para curtir e pular...

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17 de fev de 2007

dignidade


(foto sem nome, por Carla Herrera)

Me impressionou a dignidade e serenidade da nudez desta senhora. Sentada sobre a mesa, frente ao quadro onde provavelmente, minutos antes, dava sua aula. Colocada frente a seus alunos, sem falsos pudores e sem medo.

É. Este olhar me impressionou.

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"Antes tarde que depois do Carnaval"

"...Todavia, eu desejo que seu brilho.
NUNCA SEJA OFUSCADO PELA FOLHA EM BRANCO.
Seja a de pagamento, a de planejamento, a de lamento.
RABISQUEMOS NOSSA ESQUISITICE.

Se ficar dentro, viramos bolha.

Salvo enganos e excessos, liberar é o melhor remédio.
Salvar-se do médio: o direito à cultura e à loucura.
E se vacilarmos:
TOMEMOS AS MULTAS QUE PODEMOS PAGAR..."

(da Retrospectiva Jubalina de feliz ano novo,
no blog Expresso com Borra, da Ju Aaalmeida)

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16 de fev de 2007

De volta à teia

É hora de customizar mais um pouco este blog:
  1. colocá-lo no Technorati (feito!)
  2. colocar outro mecanismo de comentários para que os não-blogger.com não sejam mais anônimos (feito!)
  3. cadastrá-lo no Creative Commons (eu bem que tentei, mas...)
  4. dar uma ajeitada naquela foto do Caderninho do Cluracão, que bem podia ser melhor, né?
É hora de publicar algumas coisas mais também.
Tão logo eu terminar um post sobre o Overfeeds que estou gestando há dias, eu darei a devida atenção ao que deve ser publicado aqui.

É hora do Cluracão voltar à ativa.

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15 de fev de 2007

fechado para descanso.



acho que estou precisando de férias de tudo isso aqui...
dos blogs, da internet, do trabalho, do mundo todo.
acho que estou precisando de um dia inteiro tendo apenas eu e meus pensamentos como companhia... para descansar, recuperar minha paz e meu equilíbrio, e voltar a funcionar.

vou descansar.
volto amanhã.
"Mas é claro que estou enlouquecendo! Foi a única forma que encontrei de manter a minha sanidade..."

Não me lembro o autor. Não sei nem sequer se minha mente inventou a frase e me disse que era de outra pessoa. Só sei que gosto dela. :)

o prazer de escrever coisas sem pé nem cabeça.

Já que não consegui dormir à noite, mergulhei-me na escrita do que inicialmente era apenas um post comentando uma citação de um comentário meu no Global Voices, feita por uma blogueira Guatemalteca em seu blog.

A insanidade da madrugada fria e frustrada, que incendiava meu demônio sapequinha do nonsense pseudo-intelectual, transformou o post nisso aqui.

O que é mais engraçado é que eu realmente não acredito que o artista tenha um compromisso em ser didático e moral em sua arte, mas aqueles não são, seguramente, os meus argumentos. :)

Foi divertido. :)

cadê?



cadê a vontade de escrever, de produzir,
de fazer qualquer coisa, que tava aqui?

(update de 4 horas depois: tá aqui)

vou ver se a encontro nos sonhos.
esta noite já acabou.

(update de 4 horas depois: e quem disse que eu consegui dormir?)

14 de fev de 2007

Vendo fadas e duendes pela janela do carro... (ou, indo d'Aquí para Lá)

Acho que foi em algum dos acordes de Grendel, do Marillion, que eu ouvia no headphone enquanto falava sobre quem eu um dia fui, que eu entrei -- ou caí através -- do buraco do coelho. De repente, eu estava lá de novo, naquele carro. Via a mata passando pela janela. A Mata Atlântica, ou o que eu acreditava ser a Mata Atlântica, no caminho de Rio das Ostras para Búzios (ou o que eu acreditava ser Búzios). De repente eles estavam lá também, now and then. Aqueles homens amarronzados de olhos curiosos me olhando das árvores, aquelas pequenas fadas bonitas, aquela vida feérica toda se mostrando para o garoto de 12 anos que se acreditava mais parte daquilo do que de qualquer outra coisa. Mas não era a lembrança, ou a cena, que me impressionava. Eu me lembrava claramente desta cena o tempo todo. Era o sentimento. Eu consegui reencontrar o sentimento de ser eu naquele momento, e isso foi mais do que assombroso... foi numinoso!

Mais do que realmente acreditar, eu realmente confiava na magia naqueles tempos. Confiava mais na existência de um mundo além do visível, de uma lei natural superior às limitadas visões da natureza por parte do homem moderno, do que confiava em qualquer outra coisa, ou mesmo em mim. Eu era uma criança então. Mas era uma criança mágica. E eu sabia o que aquelas fadas e duendes e pequeninos e dançarinos-da-madeira estavam dizendo para mim. Eu sabia exatamente o que eles queriam dizer quando olhavam para mim com aqueles muitos olhos, de muitas cores e formatos, tão curiosos e assombrados quanto eu. Eles queriam dizer "que diabos você tá fazendo aí, colega?". Eles também queriam dizer "Tá. Já que você está aí, boa sorte, viu?".

Não era como se eu fosse parte daquilo. Eu era parte daquilo -- daquele outro mundo -- assim como ele era parte de mim. E ele fazia sentido. Era um mundo de presságios, de sinais, de sentidos e significados velados e de ligações misteriosas entre todas as coisas. Era um mundo onde tudo fazia sentido, embora quase tudo fosse envolto em mistério. Era um mundo que era mais estranho e ao mesmo tempo mais familiar para mim do que este mundo dos homens e das máquinas aqui. Era o meu mundo, e eu estava em casa nele. E daquele mundo vinham as certezas, e a força, para continuar vivendo.

Mas os anos se passaram depois daqueles dias, depois daquele e de muitos outros encontros com meus irmão "do outro lado". Eu tive que aprender a viver com as pessoas, ou assim acreditei que deveria fazer, e aquilo de mim que pertencia ao Mundo Encantado começou a se perder. "É a abdicação da infância", diria você. É tudo muito simples para aqueles que foram crianças. Mas eu não era uma simplesmente uma criança. Eu era um duende aprisionado em um mundo estranho, e que estava se perdendo de sua própria natureza. Não sintam pena de mim. Ninguém sabe como eu me sentí, nem o que parecia estar se perdendo naqueles anos. Nem mesmo eu posso dizer que sei, só sabia que sintia a falta daquilo que nem sabia mais ao certo o que era, até hoje.

Levei muito tempo para conseguir entender quem eu era, e quem eu sou. Nunca me sentia realmente em casa em lugar algum. Nunca me sentia realmente compreendido por ninguém. A sensação de eterno estranhamento, eterna alienação, me perseguia. Mesmo depois de aprender as artes da dissimulação e da adaptação, artes estas bem humanas -- bem diferentes das ilusões e do glamour das fadas -- eu continuava me sentindo inadequado. Quando descobri, ou redescobri, a escrita e o contar de histórias, conheci uma nova dimensão de alívio e dor. Alívio, pois descobri na arte uma nobre ressonância da magia da Terra Encantada. Eu podia novamente criar mundos, e eles podiam ser do jeito que eu sei que os mundos são, e não do jeito que eles -- os gentes -- achavam que ele deveria ser. Pude novamente explorar meus mundos em busca de minhas histórias. Mas encontrei também uma nova dimensão de dor e angústia, quando descobrí que mesmo que eu contasse as mais significativas histórias, nunca conseguiria passar para o papel aquilo que eu enxergava. Deparei-me não com os limites fantásticos da arte, mas com meus limites humanos enquanto escritor.

A Terra Encantada estava lá dentro de mim o tempo todo, embora com o tempo eu viesse perdendo mais e mais a minha capacidade de entendê-la, enxergá-la, adentrá-la. Entendi que não interessa quantas histórias eu contasse, nunca conseguiria chegar sequer à sombra do encanto daquelas Terras. Nunca alcançaria a beleza ou a magia da minha Alriada. Isso me fez desistir da escrita e da poesia por muito tempo. Novamente, me perdia de mim. Comecei novamente a perder as esperanças.

As alegrias deste mundo não são poucas nem pequenas. As diversões, as maravilhas, os sutis encantos das gentes são infindos. O horror e o absurdo das gentes também é um reflexo à altura dos horrores e perigos da Terra Encantada. Mas neste mundo de beleza e horror, eu sou um estrangeiro. Encanto-me, caminho por ele, tento construir nele uma casa, encontrar um espaço, mas sou eternamente um estrangeiro. Tornei-me também um estrangeiro de mim, e isso foi o mais triste. Perdido no reino do meio, na estrada cinza entre a Terra Encantada e a Terra da Gente, eu virei um alguém de lugar nenhum -- algo próximo a um não alguém. É claro que eu sabia fingir muito bem. Quase era possível que acreditassem, mesmo olhando bem de perto, que eu era mesmo o que parecia ser -- um Gente -- e que tudo estava bem. Até eu acreditava nisso, e propositalmente ou não, esquecia que tudo aquilo era uma mentira contada para esconder um vazio que eu não sabia como remediar. Mas era uma mentira. Eu não sou um Gente. Eu sou um filho do Outro Lado, e cedo ou tarde isso sempre vinha à tona quando me deparava com a minha inabilidade essencial para lidar com certas coisas do aqui.

Mas o tempo passou, e vez por outra os lampejos da outra terra, não mais vistos mas ainda assim sentidos, continuavam a me visitar. Vez por outra era tomado de inspiração e magia, e voltava a escrever algo. Mas o Este Mundo, ou minha inabilidade de viver nele, acabavam me afastando desta luz sublime, ou me massacrando a ponto de perder novamente os sentidos e a sensibilidade. Alternei períodos de mergulho negatório em quaisquer prazeres que este mundo pudesse me trazer e períodos de contrita auto-punição por estar perdido de mim mesmo. Em ambos, me afastava mais e mais da essência do Outro Mundo. A Terra Encantada pode ser intoxicante, mas suas intoxicações são de uma ordem muito mais sutil -- embora não menos poderosa -- do que as intoxicações do Aqui. Na maior parte das vezes as intoxicações daqui só nos afastam das terras de Lá. Ainda, a contrição e a disciplina são para as fadas e seres encantados como o sal pode ser para os sapos (ou, ao menos, para os sapos encantados). Elas nos dissolvem. Apesar, então, de quaisquer lampejos e momentos luminosos, continuava a me perder mais e mais. Por vezes me desesperava, acreditando que todos os passos que eu pudesse dar seriam, fatalmente, na direção contrária ao Caminho da Terra Encantada, e rumo à morte que é pior do que a morte do corpo -- a morte do espírito.

Vistas de fora, estas dores parecem-se um bocado com as dores dos Gentes. Mas, acreditem-me, não o são, como não são cogumelos de verdade aqueles que ladeiam aquelas árvores. Tudo de natureza feérica é dotado de tal sutileza que, aos olhos dos Gentes, passam por outras coisas que, acreditem-me, não são realmente. É particularmente grave quando, com a vista anuviada como a dos Gentes, os filhos da Terra Encantada começam a enxergar cogumelos onde há pequeninos, e dores humanas onde há a destruidora angústia de uma fada exilada. E foi o que fiz. Durante tantos anos, depois que fechei os olhos para tudo que era, eu realmente acreditei que todas estas dores eram apenas dores como as de todas as outras pessoas. Não me admira que nunca as tenha conseguido solucionar realmente. Não me admira que eu nunca tenha conseguido realmente entender quem eu sou, ou por quê sou como sou, quando fechava os olhos para a chave desta resposta. Pior do que ser um duende se perdendo da Terra Encantada era ser um Duende que achava que era Gente.

Mas já basta de falar destas dores. O desabafo já se extendeu mais do que devia, e tomou um rumo que não era aquele que eu planejava quando comecei a escrever estas linhas. Vamos parar de lamentar, e falar de redenção. De um tempo para cá (aproximadamente duas horas, para ser humanamente exato) comecei a entender, ou melhor, "realizar" (pois entender é coisa que se faz com a mente, e a mente é coisa de Gente), que tanto a Terra Encantada quanto a essência Mágica de seus filhos está sempre lá, mesmo que você não a veja, mesmo que você não a encontre. Basta você permitir que ela seja, e ela aparecerá. E foi assim que comecei a realizar também que quando não tento ser gente nem fada, nem isso nem aquilo, e quando me liberto de qualquer tentativa de ser, acabo sendo aquilo que sou. Parece complicado? É porque assim como não há palavras para descrever com propriedade as belezas e horrores da Terra Encantada, também não há palavras para explicar algumas das mais simples verdades do universo (que é um só, para lá e para cá, e ao mesmo tempo infinitos uns).

E assim, realizando uma verdade simples e inexprimível, o duende pode enfim terminar o texto que começou sem saber onde o iria levar, e dormir em paz.

Ao menos agora vocês sabem um pouco da minha história. Mas esta é apenas uma das formas de contá-la -- a minha -- e vocês não precisam acreditar nela. No fim das contas, sou apenas uma bela ilusão para vocês. Assim é a vida paradoxal das fadas.



E este é um mundo realmente muito estranho...

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жизнь красивейша

não é?

nem sempre a gente sabe, nem sempre a gente vê, mas é sim :)

13 de fev de 2007

Sinta a Liga e a qualidade da divulgação da LBL

Publiquei um post sobre a Sinta a Liga, a festa da Liga Brasileira de Lésbicas - Regional Brasília, no Overmundo. Foi uma delícia fazer o post pois:

  • Simpatizo muito com a causa.
  • O material enviado é de muito boa qualidade, e há bastante material extra disponível nos sites (este e este) do grupo.
  • O aviso da festa me foi enviado com 8 dias de antecedência. Mais do que o suficiente para que a matéria passe pela edição e votação do Overmundo.

Parabéns para as meninas da LBL, que estão dando um show de qualidade de divulgação,
e boa festa pra todas/todos que forem!


p.s. quem dera todo mundo me enviasse material de divulgação de festas tão bom assim. aprendam com elas!

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limites humanos 2

Como é que se faz boa poesia
e se conta histórias de fantasia
com a cabeça afogada em trabalhos
e o corpo desfeito em frangalhos?

Quando eu descobrir,
eu canto.

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os atiradores e os homens bomba

De um lado eles se explodem porque cansaram de levar tiros.
Do outro, eles atiram porque estão explodindo por dentro.
Dois povos já um bocado loucos estão enlouquecendo de vez,
e ainda tem gente que se pergunta quem está certo?

Nada está certo. São apenas pessoas enlouquecendo
e matando umas às outras.
Como é que se faz para que eles parem?

Não se devia dar brinquedos tão letais
nas mãos de gente tão insana e perigosa
quanto militares e fanáticos religiosos.

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12 de fev de 2007

Transgressão. (um conto de Daniel Duende)

um trecho...
"...Como eu disse, ele havia se tornado um homem difícil. Antes ele era disciplinado e correto, sempre vestido impecávelmente com seu terno preto e bengala com pomo de bronze. Mas com a doença, havia mudado muito. Não vestia mais seus ternos, e andava em casa com seus pijamas, ou usando alguma roupa velha qualquer. Era um homem culto, e nunca perdeu este hábito, mas sua biblioteca não tinha mais a velha organização de antes. Seus livros se espalhavam abertos sobre a mesa de leitura, suas páginas manchadas aqui e ali por respingos de diversas bebidas ou cinzas de cigarros. Já andava com alguma dificuldade, mas mesmo assim insistia em fazer seus passeios sozinho pelo parque próximo à sua casa. Certa vez caiu enquanto andava no parque e, para agravar sua situação, quebrou a perna. Aqueles foram dias difíceis, mas confesso que viajar para Santa Bárbara para cuidar de meu pai me distraía um pouco das coisas de São Paulo e de minha própria casa. Não acho que sua avó sentia minha falta nas minhas longas ausências motivadas pelos cuidados com meu pai. Seu bisavô, por outro lado, parecia feliz em me ver. Conversávamos um bocado, mas raramente sobre coisas pessoais. Não me sentia muito à vontade com ele, mesmo agora que ele deixara de ser o homem ríspido que havia me educado. Sentia-me responsável por ele e tentava zelar por sua saúde e bem estar, e os seus crescentes excessos me preocupavam. Mesmo doente, ele bebia um bocado -- sempre bebidas caras, importadas, sofisticadas -- e fumava sem parar. Quando os médicos o admoestaram que isso apenas piorava seu estado de saúde e abreviava ainda mais sua vida, era frequentemente grosseiro com eles."
(foto por artOtek, publicada originalmente aqui)


Meu mais recente conto, publicado originalmente no Banco de Cultura do Overmundo.
Para ler o conto Transgressão. na íntegra, clique aqui.

Há mais dois contos que fecham com ele uma trilogia.
Ainda os estou escrevendo. Seus nomes provisórios são "Agressão" e "Redenção".

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necrológio de um boêmio querido.

(publicado em 19 de agosto de 2005 no Alriada Express)


morreu um boêmio...

Eu ainda estava trabalhando, atabalhoado e cansado depois de um um dia inteiro de reunião, quando o telefone tocou. Minha tia avó me disse ao telefone, triste mas sem chorar mais, que meu tio Paulo havia morrido ontem. Disse o que sempre digo, que a vida é boa enquanto se está vivo, e que se deve vivê-la da melhor forma, e então a morte vem para todos nós... muitas vezes como um descanso. Desliguei o telefone e me sentei no fumódromo do ministério da cultura. Acendi um cigarro, da mesma marca que meu tio fumava. Morreu de complicações causadas por um efisema. Lembro-me bem do dia em que ele me deu seu Zippo e disse "toma, Daniel, toma um efisema para você". Eu peguei. Usei aquele isqueiro por anos, até o dia em que comecei a preferir isqueiros mais práticos. Zippos são mesmo confiáveis. Eles sobrevivem até a seus donos, geralmente. Chamei sempre aquele isqueiro por "efisema".

Tio Paulo está morto agora. Quando as pessoas morrem sempre ficamos nos lembrando delas, de um jeito que não parávamos para lembrar quando elas estavam vivas. Lembrei-me de sua casa em Rio das Ostras, onde passei todas as férias de verão de minha infância e adolescência. Lembrei-me de como se sentava na varanda desde cedo, com seu whiskey em garrafinha de plástico, sua salada apimentada e seus cigarros. Por vezes eu me sentava lá também e tentava conversar com ele. Sempre gostou de mim, o velho com cara de irlandês, mas nunca fomos de trocar muitas palavras. Eu apenas observava, admirava aquele homem silencioso, de barriga grande e tão digna, tão cheia de passado e boa comida. Lembro-me de como as velhas tias perturbavam o tio por seu cigarro e sua bebida. Ele nunca ligava. Ligava para seus amigos, e para seus churrascos. Acordava cedo para resolver problemas na cidade com seus óculos quadrados de armação grossa (que hoje fariam dele um homem tão elegante, novamente) e depois apenas se sentava e bebia. Por vezes contava histórias, e ria com seus dentes meio tortos. Cheirava doce, quando ria. Cheirava a vida bem vivida.

Meu tio está morto agora. Seus cigarros o mataram, dizem. "Foram complicações do efisema! Pára de fumar, Daniel", irão dizer minhas tias. Foi a vida que ele levava que o matou, nisso eu também concordo. Foi a vida onde ele se casou com a mulher que amava, sua prima Regina que foi embora antes dele sem avisar. Foi a vida em que ele bebeu e fumou e comeu o quanto quis, daquilo que quis. A vida onde ele morava longe de tudo, naquela sua casinha de sonho. Foi a vida com as galinhas, com os amigos velhos, desgastados, bêbados e felizes como ele. Foi o Zé Himério, com seu enorme corpo e voz rouca e suas histórias sobre o seu amigo Antônio Carlos Magalhâes. Foi o Bira, o ex-jóquei, com seu churrasco bom para caralho e sua cerveja esquentado do lado da churrasqueira, e seu mau humor de mineiro velho. Foi a vida que ele levava que o matou. Foi uma vida feliz que ele levou.

Acendo mais um cigarro e penso comigo mesmo - "Morreu um boêmio, que sem saber foi um modelo e um herói para mim. Morreu porquê viveu. Quando eu morrer, queria que alguém escrevesse algo bonito sobre mim."

Adeus Tio. Valeu pela vida.




(foto tirada do flickr de engin)

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11 de fev de 2007

limites humanos

Queria escrever, mas estou cansado demais.
Melhor ir dormir. Meu corpo falha.
Minhas costas, meus pulsos, doem.

Não há mais nada a se fazer.
A alma pode voar alto, querer contar histórias,
mas ainda somos apenas humanos...

Que eu tenha então, ao menos,
um bom descanso e sonhos,
muitos sonhos,
para acalmar a alma calada pela carne.

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10 de fev de 2007

ao pôr do sol...



ao pôr do sol
no meio do zumzum
a cidade e o morro
viram apenas um.

sob o vermelho do céu
cai a noite que esconde
o vermelho do sangue
e o assalto

sob o amarelo que some
esmaece o brilho do ouro
que separa o morro
do asfalto...


(trecho incidental de poesia, publicado originalmente aqui)

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Dias Ocupados + a falta que o Creative Commons faz...

Há 4 colaborações minhas na Fila de Votação do Overmundo.


A quinta colaboração, uma matéria para o Guia Overmundo sobre o Conic, em Brasília, deve entrar em votação nos próximos trinta minutos. Esta foi a que mais me deu trabalho. Passei as últimas 5 horas antes de sua publicação procurando imagens para ilustrar a matéria. Não surpreendentemente, não faltaram fotos legais do Conic. Minha surpresa foi quando vi que NENHUMA delas era licenciada em Creative Commons, e nenhum dos autores se manifestou aos meus pedidos de uso das imagens. Também... pudera; em um sábado à tarde ninguém fica em casa olhando emails, esperando ter suas fotos pedidas...

Quer saber? Querem que eu, e muito mais gente, use suas fotos? Então licenciem em Creative Commons!

(copiado e colado do Alriada Express)

7 de fev de 2007

uma tal Clarice.

Tem gente que usa a lígua de outra forma. Uma forma mais profunda, ritmada, ao mesmo tempo orquestrada e caótica. Uma forma superior, enfim. E dá um tesão absurdo... de ler. Clarice Lispector é uma destas pessoas. Com seu método ou não-método de narrar, de expor a veia aberta de suas observações tão cotidianas e ao mesmo tempo tão excepcionais, Clarice nos dá uma aula de campo de como contar histórias, enfiando o dedo, ou a língua, lá no fundo de cada cavidade do existir.

Andei lendo estes dias um de seus livros. Onde estivestes de noite, uma coletânea de contos desiguais mas todos com sua marca -- a absurda profundidade, intimidade. Por vezes me exaspero, como menino, frente às peripécias que esta mulher de olhos e olhar tão fortes faz com a língua e com o narrar. Me assombro, tento aprender, desisto. Só Clarice pode escrever daquela forma impunemente. Só Clarice, ela mesma, pode ir tão fundo. A mim resta absorver o que meus poucos anos e pouca atenção permitirem, e contar o que tiver para contar, do jeito que eu souber. Só ela sabe fazê-lo do jeito dela.

Ninguém é como Clarice quande escreve. Podem escrever de outras formas, mas a dela é profunda e tragicamente só dela. Clarice é uma sacerdotiza da angústia e da redenção, profunda em sua humanidade e em sua honestidade silente. Há quem a compare com Kafka. Pobre Kafka. Pobre Clarice. Pobre tradutor, que teve a infeliz idéia de que se comparam assim as prosas e as pessoas. Só quem lê Clarice sabe o que é. Só Clarice sabia quem era ela mesma. A nós, resta ler Clarice, e aprender... ou não.


(uma versão revisada e ampliada deste post foi publicada no Overmundo)

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o sono do imperador

o sono do imperador

Ainda estou tentando aprender
a dormir, a sonhar e a viver...

No meio do caminho,
eu aprendo a escrever.

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pilastras


pilastras by ~cluracan on deviantART

"os caminhos da cidade alada são o meu pilotis
e as árvores altas, que se projetam tão acima
são as pilastras que seguram o meu céu..."

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Alriada

Longe, longe, longe daqui e dali,
Nas terras da terra que é a terra,
Contam as lendas de um povo muito belo
Que vive e brinca
Com os campos de Nossa Senhora

De suas frontes reluzem candeeiros
e em seus olhos vivos, estrelas,
luzinhas, brilhinhos, fogos-fátuos
Sabores de uma terra distante.
Uma terra cheia das coisas boas
de nossa gente.
Fecunda...
de deitar e estar
e gostar
de verdade.

É uma terra de luz
e de crepúsculos
e auroras.
Uma terra com raízes e flores.
Uma terra com fé em seu sangue.
Uma terra com Deuses das coisas,
das forças e das fraquezas,
da poesia que brota qual
água da vida, dos campos...
Dos velhos e dos novos tempos.

Eras tão boa minha terra.
Teus vales, teu seio perfeito
e as depressões que me levavam
ao fundo de mim mesmo
e ao fundo de ti,
eram como memórias da aurora
ou de coisas que não sei mais.
É saudade que sinto
e uma dor de não estar...
Eras tão boa, minha terra
que nem sei porquê me deixei ir embora
sem voltar.

Mas não quero encerrar meu canto filho
com soares de dor e saudade,
mas sim com um ar de esperança
de que voltarei, e volto
sempre.
Algum dia, quando eu voltar
terei bocas pra beijar
crianças pra abraçar
e uma história pra contar...


A antiga poesia minha que, em tese,
deu origem ao nome do
blog.
Publicada originalmente aqui.

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Herança - fragmento

"...Sentou-se ao lado da cama do pai. Mesmo sem fumar, o velho ainda cheirava a cigarro e cinzas. Desde pequeno não gostava que o pai fumasse. Sentia que aquilo era ruim, que iria acabar matando seu maior herói e anti-herói. Não adiantou falar. Chegaram a brigar por isso algumas vezes, mas por fim ele aprendeu a respeitar aquele homem estranho a quem devia metade -- talvez até mais -- daquilo que havia se tornado. Mas agora seu pai estava alí deitado e tão frágil... tão frágil... Respirava com ajuda de aparelhos. Estava morrendo, e o havia chamado. Porquê, ele não sabia...

Esperou por um bocado de tempo, fitando o velho homem deitado na cama. Mesmo na esterilidade de um quarto de hospital ele ainda parecia emanar, mesmo que débilmente, um encanto estranho. Lembrou-se de sua infância. De como ele parecia ao mesmo tempo tão distante e tão onipresente. As coisas de seu pai, os olhares tão significativos, as palavras esquisitas sobre coisas esquisitas. Seu pai pareceu sempre viver em outro mundo, mas também parecia estar mais alí do que qualquer outra pessoa. Por vezes parecia absorto, mas hoje ele sabia que aquele olhar estranho, desfocado, esteve sempre repleto de amor. Lembrou-se dos brinquedos estranhos que ganhava a contragosto, quando só queria ter brinquedos como os de outras crianças. Depois vieram os livros, as poesias rabiscadas em guardanapos de bar e folhetos de anúncios, as roupas que ele nunca teria coragem de usar. Derramou uma lágrima. Não sabia naquele tempo o quanto aqueles brinquedos, aquelas palavras e aqueles livros, aquelas roupas -- aquele homem -- estavam trazendo algo à sua vida que poucas pessoas acreditavam ou teriam. Hoje, olhando para seu pai deitado naquela cama, ele finalmente tinha que admitir. Aquele homem entendia mesmo de magia. Ele tentou ensinar isso a todos, mas muito poucos entenderam a tempo. O tempo não é amigo de gent ecomo seu pai. Ou talvez seja. Talvez fosse mesmo hora para que o velho cluracão descansasse. Chorou como criança ao lado da cama do pai.

Suas lágrimas pareceram despertar o homem que ressonava sobre a cama. Seus olhos feitos pequenos pelo peso das rugas e dos anos -- parecia muito mais velho do que era, dado à sua vida desregrada -- levaram algum tempo para focalizar o filho, mas por fim sorriram. Não podia falar além de um sussuro. A operação havia roubado sua voz. Mas mesmo assim seu sorriso falou muito. O velho derramou também uma lágrima ao ver que o filho chorava, mas seus olhos ainda pareciam cheios de uma alegria estranha. Era tudo estranho e encantador sobre aquele homem.

"Você me chamou, pai?"
"Sim". Apenas um sussurro.
"O vôo atrasou. Os aeroportos estavam uma loucura com..."
Um aceno de mão de seu pai o calou. Fitaram-se mais um momento, até que o homem sobre a cama falou com dificuldade.
"Eu te amo, meu filho. Sempre te amei. Leva seu nome... todas as lembranças... Quando eu for embora, vai ser você..."
"Calma pai. Não se esforça tanto para falar..."
"Cala a boca, filho. Escuta..."
"Sim pai. Fala...". Mais lágrimas.
"Eu estou indo. Leva tudo que te dei". O sussurro ficou mais fraco.
"Sim pai. Eu tava aqui esperando você acordar e lembrando da minha infância, e do cara maravilhoso que você era mesmo que eu não soubesse sempre disso. Mamãe por vezes falava tanta besteira sobre você..."
"Eu amo a sua mãe também... Ela é uma tola. Linda e amorosa, e tola..."
"É... ela é..."
"Acredite..." O sussurro foi transformado em um chiado. Tosse. O corpo frágil sobre a cama se contorce.
"Pare de falar, pai. Você ainda não tá em condições..."
"Acredite em magia, filho...", diz o velho encantado entre espasmos de tosse.
Uma enfermeira entra no quarto. O filho é mandado embora..."

Este é um fragmento de "Herança". Um livro que comecei a escrever pouco antes de sair de Brasília, e talvez algum dia termine. Até lá, ao menos este fragmento, (o único a ser) publicado no Alriada Express está resgatado e a salvo aqui.

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a quarta coisa.

Existe uma quarta coisa:
(lembra das três anteriores?)

Faça o que fizer, mesmo que seja merda, faça com verdade e vontade, e faça por inteiro.


Você só se fode quando se contenta com metade de você mesmo.

três coisas.

Três coisas desta vida eu aprendí:

Uma delas é que você tem que ser feliz.
A outra, que você tem que amar de todo coração.
A terceira é que não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo o tempo todo...


Mas a gente continua fazendo o que pode.

cara de pau

De vez em quando, em conversas com os Deuses, a gente consegue ter uma cara de pau, não?

"Eu tenho saúde de ferro, tenho uma família complicada e maravilhosa, tenho amigos fantásticos, tenho inspiração, poesia, dinheiro o bastante e a brisa do mar entrando pela janela... agora dá para vocês quebrarem mais um galho e me deixarem ser feliz, bem feliz, com a mulher que eu amo?"

Os Deuses costumam ser compreensivos comigo...


geralmente.

existem caminhos 4



"...conheço teu corpo
como quem conhece
o caminho de casa,
como as árvores
que me levam à sua porta
me conhecem por meu andar
e pelo meu sorriso franco
de antecipação em te encontrar."



publicado originalmente no meu flickr e no meu DeviantART.

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Parla!

Pronto...

Por hora, ele vai ficar assim.
Vai me servir, até o momento
em que deixar de servir.

Aì, mudo tudo de novo. :)
Agora este blog está ficando do jeito que eu gosto...

6 de fev de 2007

Postulado.

Abandone toda a banalidade, vós que entrais.
Nada me interessa aqui, que não seja poesia
ou a verdade mais profunda
e mais essencial
do animal humano.


Está inaugurado o Caderno do Cluracão,
o blog de poesias e fragmentos
de Daniel Duende.



Que assim seja.

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