12 de fev de 2007

necrológio de um boêmio querido.

(publicado em 19 de agosto de 2005 no Alriada Express)


morreu um boêmio...

Eu ainda estava trabalhando, atabalhoado e cansado depois de um um dia inteiro de reunião, quando o telefone tocou. Minha tia avó me disse ao telefone, triste mas sem chorar mais, que meu tio Paulo havia morrido ontem. Disse o que sempre digo, que a vida é boa enquanto se está vivo, e que se deve vivê-la da melhor forma, e então a morte vem para todos nós... muitas vezes como um descanso. Desliguei o telefone e me sentei no fumódromo do ministério da cultura. Acendi um cigarro, da mesma marca que meu tio fumava. Morreu de complicações causadas por um efisema. Lembro-me bem do dia em que ele me deu seu Zippo e disse "toma, Daniel, toma um efisema para você". Eu peguei. Usei aquele isqueiro por anos, até o dia em que comecei a preferir isqueiros mais práticos. Zippos são mesmo confiáveis. Eles sobrevivem até a seus donos, geralmente. Chamei sempre aquele isqueiro por "efisema".

Tio Paulo está morto agora. Quando as pessoas morrem sempre ficamos nos lembrando delas, de um jeito que não parávamos para lembrar quando elas estavam vivas. Lembrei-me de sua casa em Rio das Ostras, onde passei todas as férias de verão de minha infância e adolescência. Lembrei-me de como se sentava na varanda desde cedo, com seu whiskey em garrafinha de plástico, sua salada apimentada e seus cigarros. Por vezes eu me sentava lá também e tentava conversar com ele. Sempre gostou de mim, o velho com cara de irlandês, mas nunca fomos de trocar muitas palavras. Eu apenas observava, admirava aquele homem silencioso, de barriga grande e tão digna, tão cheia de passado e boa comida. Lembro-me de como as velhas tias perturbavam o tio por seu cigarro e sua bebida. Ele nunca ligava. Ligava para seus amigos, e para seus churrascos. Acordava cedo para resolver problemas na cidade com seus óculos quadrados de armação grossa (que hoje fariam dele um homem tão elegante, novamente) e depois apenas se sentava e bebia. Por vezes contava histórias, e ria com seus dentes meio tortos. Cheirava doce, quando ria. Cheirava a vida bem vivida.

Meu tio está morto agora. Seus cigarros o mataram, dizem. "Foram complicações do efisema! Pára de fumar, Daniel", irão dizer minhas tias. Foi a vida que ele levava que o matou, nisso eu também concordo. Foi a vida onde ele se casou com a mulher que amava, sua prima Regina que foi embora antes dele sem avisar. Foi a vida em que ele bebeu e fumou e comeu o quanto quis, daquilo que quis. A vida onde ele morava longe de tudo, naquela sua casinha de sonho. Foi a vida com as galinhas, com os amigos velhos, desgastados, bêbados e felizes como ele. Foi o Zé Himério, com seu enorme corpo e voz rouca e suas histórias sobre o seu amigo Antônio Carlos Magalhâes. Foi o Bira, o ex-jóquei, com seu churrasco bom para caralho e sua cerveja esquentado do lado da churrasqueira, e seu mau humor de mineiro velho. Foi a vida que ele levava que o matou. Foi uma vida feliz que ele levou.

Acendo mais um cigarro e penso comigo mesmo - "Morreu um boêmio, que sem saber foi um modelo e um herói para mim. Morreu porquê viveu. Quando eu morrer, queria que alguém escrevesse algo bonito sobre mim."

Adeus Tio. Valeu pela vida.




(foto tirada do flickr de engin)

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