7 de fev de 2007

Herança - fragmento

"...Sentou-se ao lado da cama do pai. Mesmo sem fumar, o velho ainda cheirava a cigarro e cinzas. Desde pequeno não gostava que o pai fumasse. Sentia que aquilo era ruim, que iria acabar matando seu maior herói e anti-herói. Não adiantou falar. Chegaram a brigar por isso algumas vezes, mas por fim ele aprendeu a respeitar aquele homem estranho a quem devia metade -- talvez até mais -- daquilo que havia se tornado. Mas agora seu pai estava alí deitado e tão frágil... tão frágil... Respirava com ajuda de aparelhos. Estava morrendo, e o havia chamado. Porquê, ele não sabia...

Esperou por um bocado de tempo, fitando o velho homem deitado na cama. Mesmo na esterilidade de um quarto de hospital ele ainda parecia emanar, mesmo que débilmente, um encanto estranho. Lembrou-se de sua infância. De como ele parecia ao mesmo tempo tão distante e tão onipresente. As coisas de seu pai, os olhares tão significativos, as palavras esquisitas sobre coisas esquisitas. Seu pai pareceu sempre viver em outro mundo, mas também parecia estar mais alí do que qualquer outra pessoa. Por vezes parecia absorto, mas hoje ele sabia que aquele olhar estranho, desfocado, esteve sempre repleto de amor. Lembrou-se dos brinquedos estranhos que ganhava a contragosto, quando só queria ter brinquedos como os de outras crianças. Depois vieram os livros, as poesias rabiscadas em guardanapos de bar e folhetos de anúncios, as roupas que ele nunca teria coragem de usar. Derramou uma lágrima. Não sabia naquele tempo o quanto aqueles brinquedos, aquelas palavras e aqueles livros, aquelas roupas -- aquele homem -- estavam trazendo algo à sua vida que poucas pessoas acreditavam ou teriam. Hoje, olhando para seu pai deitado naquela cama, ele finalmente tinha que admitir. Aquele homem entendia mesmo de magia. Ele tentou ensinar isso a todos, mas muito poucos entenderam a tempo. O tempo não é amigo de gent ecomo seu pai. Ou talvez seja. Talvez fosse mesmo hora para que o velho cluracão descansasse. Chorou como criança ao lado da cama do pai.

Suas lágrimas pareceram despertar o homem que ressonava sobre a cama. Seus olhos feitos pequenos pelo peso das rugas e dos anos -- parecia muito mais velho do que era, dado à sua vida desregrada -- levaram algum tempo para focalizar o filho, mas por fim sorriram. Não podia falar além de um sussuro. A operação havia roubado sua voz. Mas mesmo assim seu sorriso falou muito. O velho derramou também uma lágrima ao ver que o filho chorava, mas seus olhos ainda pareciam cheios de uma alegria estranha. Era tudo estranho e encantador sobre aquele homem.

"Você me chamou, pai?"
"Sim". Apenas um sussurro.
"O vôo atrasou. Os aeroportos estavam uma loucura com..."
Um aceno de mão de seu pai o calou. Fitaram-se mais um momento, até que o homem sobre a cama falou com dificuldade.
"Eu te amo, meu filho. Sempre te amei. Leva seu nome... todas as lembranças... Quando eu for embora, vai ser você..."
"Calma pai. Não se esforça tanto para falar..."
"Cala a boca, filho. Escuta..."
"Sim pai. Fala...". Mais lágrimas.
"Eu estou indo. Leva tudo que te dei". O sussurro ficou mais fraco.
"Sim pai. Eu tava aqui esperando você acordar e lembrando da minha infância, e do cara maravilhoso que você era mesmo que eu não soubesse sempre disso. Mamãe por vezes falava tanta besteira sobre você..."
"Eu amo a sua mãe também... Ela é uma tola. Linda e amorosa, e tola..."
"É... ela é..."
"Acredite..." O sussurro foi transformado em um chiado. Tosse. O corpo frágil sobre a cama se contorce.
"Pare de falar, pai. Você ainda não tá em condições..."
"Acredite em magia, filho...", diz o velho encantado entre espasmos de tosse.
Uma enfermeira entra no quarto. O filho é mandado embora..."

Este é um fragmento de "Herança". Um livro que comecei a escrever pouco antes de sair de Brasília, e talvez algum dia termine. Até lá, ao menos este fragmento, (o único a ser) publicado no Alriada Express está resgatado e a salvo aqui.

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1 Comments:

Blogger Dora Nascimento said...

Reli...
porque tenho andado quase que de mãos dadas com um homem que quando amadurecer a alma ainda joven dentro do corpo já debilitado pelo tempo, os filhos o saberão um Mago.
Um homem com magia nos olhos, no sorriso, e nas palavras...
Um homem como o que eu gostaria que tivesse sido o meu pai, e eu só me daria conta disso, talvez, também um pouco tarde demais.
Será?
Para o amor, não importa em que tipo ou escala ele esteja sendo sentido, nunca é tarde para ser atingido e sentido.
Quando o meu pai caiu doente, eu fiquei com ele no hospital, sendo revezada pela manhã por outra irmã mais nova...
Ali, com ele frágil e calado e dependente de mim, eu refleti entre o caos de um SUS e o sofrimento do meu pai - que eu tinha que exigir atendimento quase aos berros - eu quis saber, de tudo o que ele me ensinou torpemente, como teria sido a vida dele, que eu sabia, ele tinha transformado numa grande aventura... Mas meu pai nada contava, nunca nos contou nada, quando tínhamos ouvidos ansiosos para ouvi-lo...
quando enfim ele serenou e quis nos contar, éramos adultos surdos para os sussurros, resíduos de uma voz que sempre nos falou aos berros.
Naquelas noites, eu tinha que ajudá-lo em tudo, e no primeiro banho matinal antes da minha outra irmã chegar, ele se queixou por não haver um enfermeiro para banhar-lhe e ele ter que passar pela humilhação de ficar nu na frente da própria filha.
eu respondi secamente - não havia outra emoção naquela exaustão e descrença de carinho entre pai e filha - "E o senhor acha que eu nunca vi um homem nu, papai?"
Acho que sim, se há algo de necessário e importante para a minha vida que o meu pai me ensinou, fou transformá-la numa grande aventura.
é o que eu estou fazendo, e ainda mais, acreditando em magia, o que dá o tom.
Lindo seu escrito... como sempre, eu penso estar completo... Mas a cria é sua, e você talvez a faça crescer...
Quando o li a primeira vez, chorei do mesmo jeito que estou chorando agora, e quis te contar esse fragmento de vida entre eu e meu pai, mas na hora faltou-me forças...
Não é que eu não amasse meu pai, é que ele não ensinou direito, como isso poderia ser feito. Nunca.
Meu pai nunca me beijou.
e eu nunca beijei meu pai.
Mas eu cultivo entre minha filha após ter começado a beijar a minha mãe.
é que é preciso crescer, e virá um deles, e saber, na pele, na alma, na mente, o que é ter e criar um Filho, e nós, lá em casa, éramos nove, e não teve pra ninguém, nada.
Mas algumas feridas fecharam e foram remediadas, e hoje eu beijo a minha mãe, e talvez soubesse beijar meu pai.
A minha filha amava o avô e o cobria de beijos e ele a ela, eu não tinha inveja, eu simplesmente não conseguia acreditar no que via naquele homem que sempre fora tão frio com os filhos...
Mas há um detalhe, era só com a Cecília que ele era atenciso e carinhoso, porque ela foi quem deu o primeiro beijo e disse que o amava enquanto lhe penteava os cabelos para ele ficar bonito igual o Leonardo Di Caprio, ela o dizia...
Um abraço, desculpe a verborragia... toda vez... pedindo desculpas... sempre?
Se o homem com quem ando de mãos dadas no abstrato da distância me abandonasse hoje, talvez eu não parasse mais de chorar.
Bom domingo

2/17/2008 12:47:00 PM  

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