29 de jun de 2007

As cinco obras que marcaram.

Mais um daqueles memes muito difíceis de responder...

O Viktor Navorski do Abre Parêntese me incluiu no meme que lhe foi "imposto" inicialmente por André Miranda (do Zine Acesso). É claro que por pura e amorosa maldade os meus indicados para respondê-lo são o Paulo Bicarato, meu querido copoanheiro do Alfarrábio.org, a Luana Selva (que está de blogue novo no imaginários.net), a libélula Tati Zengzung (também moradora do imaginários) e o mano véio companheiro de divagações e aventuras Daniel Pádua (que é o zelador-crocante da casa imaginária e, claro, tem um blogue por lá).

Agora que já passei a dor de cabeça em frente, está na hora de tentar escolher cinco -- Os cinco -- entre os livros que tanto me marcaram. Vamos fazer assim: vou responder sem pensar muito, tudo bem? Os livros que mais me marcaram e ainda hoje fazem sentido para mim (em nenhuma ordem especial, exceto a da memória) são:

  • O Caso Morel, de Rubem Fonseca (mais uma vez, não apenas pela trajetória humana de Paul Morel, mas também pela aula de escrita que Fonseca nos dá neste e em tantos outros de seus livros.)

É claro que vários livros maravilhosos ficaram de fora, mas são duas horas da manhã e foi assim que eu quis responder a este meme agora. Se pudesse citar um sexto livro, ou talvez um sétimo, acho que eu acabaria citando o Bukowski.

Tudo é uma questão de momento. A vida é feita deles, afinal.

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26 de jun de 2007

Irmandade



Foto de Lou Gold, no casamento de meu irmão.

Quando vi o sorriso de criança no rosto desse homem,
chorei de alegria, e também que nem criança.

Que os Deuses abençoem todos os irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas (e crianças) deste planeta azul e verde.

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21 de jun de 2007

MarthaV no Gate's Pub

MARTHAV
:: Show Voz e Violão em Brasília ::

Abrindo os shows das bandas
- Los Porongas
- Sestine


DATA: 22/06/07
LOCAL: Gate's Pub (403 SUL)
HORÁRIO: 22h
PREÇO: R$ 10,00


É... é isso aí mesmo...
A moça mal pisou na cidade quadradinha
e já arranjou um lugar para tocar.
Como ela mesma diz: o nome dela é trabalho. :)

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Feira de Quadrinhos no Mercado Central do Conic

Vai rolar no sábado, dia 30, o mercado central (que ainda não tem site listado no Google) deste mês lá do Conic. O mercado central rola todo último sábado do mês, e tem a função de revitalizar(!?) o Conic e reunir um povo bacana para fazer coisas bacanas, ou simplesmente para se cruzar pelo Conicão.

No meio de todas as outras coisas do fino da bossa que vão estar rolando por lá, haverá a feira de quadrinhos da Kingdom Comics. O email que recebí da Lua Cyriaco (que, entre outros talentos, também desenha que é um absurdo!) fala por si mesmo:

nesse sábado dia 30, vai rolar o mercado central aqui no CONIC, e com ele a feira de quadrinho. A gente da Kingdom Comics reserva uma mesa pra quem estiver interessado, é só dar uma confirmada pelo e-mail ou por telefone mesmo (3223-7852). Traga seus quadrinhos usados e venha negociar.

obrigada!

Ah, sim! se quiser divulgar aos amigos esteja à vontade, mas precisa avisar com antecedência por causa da reserva das mesas, ok?

--
Lua

Pois é. Já tenho mais um bom programa para o meu sábado 30. :)

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20 de jun de 2007

Em casa, atulhado de trabalho.

Já estou em casa -- na Casa da Colina que tantas vezes me acolheu -- e novamente me aclimatando à vida entre estas exóticas e mágicas paredes. Estou, contudo, atulhado de afazeres vários, entre eles umas (muitas) traduções de textos para o Global Voices Lingua Portugues. Mal vejo a hora de ter tempo de desfrutar da paz do lugar para voltar a escrever.

Em breve... em breve...

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15 de jun de 2007

Voltando para casa...

Na próxima vez que eu me sentar para escrever,
estarei sentado em uma casa no topo de uma colina
olhando para a cidade onde eu nascí.

Estou voltando para casa, finalmente...

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um trecho do conto "Porta dos fundos (do templo)"

"(...)Encontrei, finalmente, um garçom. Segurei ele pelo braço -- "me vê um lucky, meu velho" -- e me sentei de novo. A carolinha havia se sentado em outra mesa, com outras carolinhas com o mesmo jeito de cuzinho cheiroso. Todas elas estavam com camisas idênticas, umas pretas e outras brancas, e agora esmagavam seus Jesus -- seja lá qual for o plural do nome do cara -- nos encostos das cadeiras. Fiquei olhando um tempo, enquanto bebia minha cerveja. Quando você está entendiado, qualquer coisa é interessante. Quando o garçom chegou, entornei o resto da cerveja no copo e pedí mais uma. Quando o garçom saiu da frente, ví que minha carolinha tava me olhando. Acho que sorri, mas não deve ter sido um sorriso bonito.

Mas a merda é que ela não parecia estar olhando pra mim. Devia estar olhando para a minha camisa. Ah! Cacete! Que coincidência. Foi então que me toquei de que eu estava usando minha camisa roxa onde se lia "Jesus te ama, mas eu te acho um merda" -- uma surrada pérola dos tempos em que o Caceta e Planeta ainda era um grupo de humoristas. Era uma camisa legal, mas fodam-se eles.
A mina fez um olhar de reprovação para mim, balançou a cabeça, fez biquinho. Caralho, como alguém pode ser tão ridiculo e sedutor ao mesmo tempo? Fiquei com vontade dela, de vez. Dei de ombros pra ela, e fingi não dar muita atenção. Olhei à volta, pra dar uma sacada no movimento do bar. Não me distraía. Notei que meu humor tinha melhorado. Levantei um brinde para a pilastra e virei o copo. Ao longo das próximas duas cervejas, a carolinha deu um jeito de passar pela minha mesa duas vezes. Deixado de lado o Jesus, ela parecia ter um cuzinho muito gostoso por baixo daquela calça jeans.(...)"


Porta dos fundos (do templo) é um dos novos contos em que estou trabalhando. É diferente dos outros, embora tenha suas semelhanças. É meio tosco, mas vejo nele também alguma doçura. Causa primeiras e segundas impressões; faz mais sentido conforme você vai olhando para ele. Não pede licença nem perdão, apenas é como é.

É um conto humano, ponto.

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14 de jun de 2007

E por falar em rock...

Enquanto entrava ontem no metrô, prestando atenção no espaço entre o vão trem e a plataforma, me toquei de que sempre que ouvir Lixo Extraordinário vou me lembrar dos melhores dias que passei aqui no Rio junto com o Valdir Batone e a Gabi Andrade. Se aprendí alguma coisa sobre esta cidade, foram eles e a prosa de Rubem Fonseca que me ensinaram.


Eles são o rock and roll
onde eu sou apenas
palavras silenciosas.



E por falar em Lixo Extraordinário, já está no youtube um clip bem bacana para "Rosa dos Ventres" (uma canção que embala no mínimo dois de meus casais prediletos, se não três). O clip está colado abaixo.



Bacana, né? Minha visão -- meu olhar sobre esta música -- difere um pouco do olhar de Edu Reginato, autor do clip. Mas esta é a parte boa da cultura livre: se eu tenho outro olhar, resta-me fazer outro clipe para a música. Todos os olhares são possíveis e permitidos, conquanto que a gente saiba respeitar o olhar do outro, e o nosso próprio.

Um abraço pro Batone, pra Gabi, pro Edu que ainda não conheci, e para todo mundo que entende a rocha e o veludo do Rock and Roll.

E obrigado por tudo.

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New Rave? Então tá bom...

Recebí um email falando de uma festa "New Rave". Instantaneamente arranjei um novo modismo do qual ter muita preguiça. Quem é que tem saco para mais um "bando de bandinhas" achando que reinventaram a festa e a diversão? Isso é tão antigo quanto a juventude (e, até onde sei, esta é tão antiga quanto a humanidade), e as novidades andam envelhecendo muito rápido rápido hoje em dia, pois há cada vez menos inovação nelas.

Onde foi parar a arte, o tesão e o prazer?
Estão onde sempre estiveram. Em todo o lugar.
Que vontade louca a indústria cultural tem de inventar!

Eu? Eu ainda prefiro meu bom e velho rock.
(e lounge é o escambau! eu ouço é jazz!)

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11 de jun de 2007

o Jornal das Pequenas Coisas.

O Adroaldo Bauer deu a dica lá no post d'O Cavaleiro e o Dragão (parte 6) no Overmundo, eu fui olhar e gostei. o Jornal das Pequenas Coisas, da escritora, poetisa e defensora de benjamins Rita Apoena, é um blogue doce, simpático e muito bem escrito.

Mais do que a propaganda, ele vale muitas visitas. Quem sabe uma hora ela volte das escritas e reabra os comentários para que possamos elogiar o blogue dela. :)


p.s. e este é um post com vírgulas demais, mas quem se importa? deixe as vírgulas serem felizes correndo por entre as letras...

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e ainda mais Teatro Oficina Perdiz...

A Larissa Marques deixou um comentário em um de meus posts sobre o Teatro Oficina Perdiz avisando que colocou no youtube uns vídeos gravados na Virada Cultural do Perdiz (1,2,3,4,5).

Além disso a Larissa avisou que quer "mobilizar algumas bandas para fazer uma série de acústicos, lá no Teatro Oficina". Se alguma banda ou cantor/cantora de Brasília estiver interessado/a, deve entrar em contato com a Larissa no email larissapin@hotmail.com.

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10 de jun de 2007

Tempo

O dia está passando depressa.
Minha barba está crescendo
e há tantos cigarros no cinzeiro.
Já fiz mil e trinta coisas diferentes
das duas mil e noventa que ansiava
fazer antes do dia desaparecer
por trás dos prédios e do mar.

Ser humano é ser tudo ao mesmo tempo.
mas me falta o tempo, este amigo que trai,
para ser tudo que sinto em meu ser
ao longo destas poucas vinte e quatro horas.
Ser humano é ser tudo ao mesmo tempo.
Mas o dilema é que sempre nos falta...
tempo.

Será que o grande segredo, para se ser humano
sem se partir ao meio ou enlouquecer,
seria partir ao meio o tempo, este amigo que trai,
para que possamos ser inteiros,
em um momento de cada vez?

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sobre o ofício de escritor...

É estranho como o ofício de escritor, antes tão solitário por natureza, tem se tornado cada vez mais social nestes tempos digitais. Se antes as horas de escritor eram longas e silenciosas, cheias de palavras ditas e ecoadas só pelas paredes, hoje elas são um burburinho tão amoroso e tão intenso do qual ele tem que escapar por vezes para conseguir escrever mais.

Fico exultante, feliz e saltitante, com cada elogio que minhas obras recebem. Gosto de atender a todos, responder a todos, ler tudo aquilo que meus leitores-escritores estão produzindo... Mas as horas do dia ficam curtas para tudo isso.

Ainda estou aprendendo a lidar com toda esta atenção e reconhecimento.
Sejam pacientes comigo.

E muito, muito, muito obrigado mesmo!


p.s. e, respondendo à pergunta de uma querida amiga: é um estranho que ainda não sei dizer se é bom ou ruim. É bom, ao menos em parte, porque é uma coisa cheia de amor e apreciação... me projeta às nuvens... mas por outro lado me é um pouco angustiante nem sempre conseguir retribuir a todos, atender a todos, dar a atenção merecida a todos. Sinto-me afogado em carinho. Ainda estou aprendendo...

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9 de jun de 2007

O Cavaleiro e o Dragão, parte 6.

A parte 6 de O Cavaleiro e o Dragão, uma das minhas várias partes prediletas nesta minha "fábula-folhetim"*, já está na fila de edição do Overmundo.

Aos meus leitores que a acompanham, não é necessário dizer mais nada.
(e para aqueles que não acompanham... bem, de que adiantaria dizer alguma coisa?) :)

---
* este termo foi cunhado para a fábula O Cavaleiro e o Dragão pelo amigo Spírito Santo, em um inspirado comentário deixado em meu perfil no Overmundo. Spírito, você é um barato, cara! :)

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8 de jun de 2007

Balanço (um conto-fragmento)


Balanço.


O vento uivava lá fora. Tão forte, tão enormemente forte e vasto! As árvores balançavam até quase se quebrarem. Em algum lugar, uma porta bateu seca. Lá fora. Tudo lá fora. Alí dentro só havia silêncio. As luzes estavam todas apagadas, e nada se movia. Nada se podia ver além da brasa do cigarro. A mão que o segurava não se movia. Parecia não haver vida lá dentro. Perdido em pensamentos, Saulo esquecia-se até de bater as cinzas do cigarro pousado sobre o peito nu. Uma brasa caiu sobre seu peito. Saulo não se moveu.

Em algum lugar, um telefone tocou. Não era ali. Não era pra ele. Saulo apenas permaneceu em silêncio. Quando se moveu, foi para apagar o cigarro que não fumou, em um cinzeiro já abarrotado de cinzas. Ato contínuo, acendeu outro cigarro e deu uma baforada. Gemeu baixo, mas seu gemido foi engolido pelo vento. Moveu a cabeça lentamente para fitar a passagem em arco que dava para o corredor. Deu outra tragada profunda, que fez com que a brasa iluminasse seu rosto. Chorava em completo silêncio e sem lágrimas. Lágrimas e palavras eram dispensáveis.

Tinha seus motivos para chorar. Duvidava que fizessem sentido para mais alguém. Sentia-se muito só, mesmo que isso também não fizesse sentido para mais ninguém. Fitou as sombras do corredor, como se enxergasse coisas que não estavam lá. Deu mais uma tragada profunda no cigarro. Suspirou. Quando o vento bateu mais forte, balançando a janela ruidosamente, assustou-se um pouco. Como que despertado de um transe, alcançou o copo e bebeu. Fez uma careta, e uma gota de vodka escorreu pelo canto de sua boca. Não a impediu, enquanto ela rolava até o seu queixo e alí ficava, projetada.

Sozinho, ele entendia melhor a própria solidão. Em silêncio, não precisava dizer nada. Mesmo triste e só, preferia estar alí. Ninguém poderia tocá-lo naquele lugar, onde era intocável. A não ser que...

Quando o telefone tocou, sabia que alguma coisa iria acontecer. Estremeceu ao segundo toque. Atendeu. Lá fora, o vento ainda soprava, balançando a janela.

---

Balanço é mais um de meus fragmentos de gaveta. Como foi escrito e reescrito em um arquivo .txt, não é possível saber quando surgiu. Olhei para ele muitas vezes, reescrevendo uma parte ou outra, adicionando e retirando frases. Nunca soube ao certo o que queria dizer. Hoje, mesmo sem entendê-lo por completo, me pareceu pronto -- mesmo sendo apenas um fragmento. Resolví publicá-lo aqui, então, para poder dormir em paz.

Não me perguntem o que quer dizer. É apenas uma história. Eu apenas a escrevi. Não é minha.
Apenas Saulo entende seus motivos para chorar, mas ele prefere ficar só. Não o perturbem.

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"coma gente muda com a escrita"

Este era... err... é um post sobre o efeito que a escrita tem sobre o escritor (e não apenas o contrário), mas preferi deixar o inexplicável (inexplicável?) ato falho que cometí no título. Sabe-se lá por quê. Vai ver é porque achei engraçado...

Como eu estava dizendo, ou ia dizer, a escrita muda a gente. Não é apenas a experiência e a reflexão envolvidas no escrever. Há um algo mais. É como se algo daquilo que se cria, das imagens, das emoções, dos sentimentos, ficasse impregnado em nossa alma. Se tudo que escrevemos vem de nós, ou ao menos de algo que absorvemos do mundo, escrever "muda o nível" da nossa relação com aquilo que é matéria prima da escrita, e com o seu resultado.

Se antes de escrever uma história que me surge, os personagens me assombram e aporrinham, depois de escrevê-la eles se tornam quase amigos imaginários. Mesmo que não me demandem mais nem uma história, eles continuam por aqui, em mim, e eu posso sentí-los... e é bom. As emoções transmitidas também me afetam. E eu não penso de forma alguma que elas fossem minhas emoções desde o princípio. São por vezes emoções de uma história, de um ou mais personagens, que se realizam no ato da criação literária. Estas emoções, somadas da experiência criativa e da labuta literária, definitivamente mudam o escritor. E recomeça o processo, pois o escritor mudado também influencia sua obra, e a obra o influencia de volta.

Escrever é um casamento, é um ofício de vida e -- quem escreve me entende nessa -- escrever também é um alterador de consciência. O escritor que nunca ficou alterado ou inebriado com sua escrita, que atire a primeira caneta (mas por favor, não me atirem teclados porque isso machuca!).

Por fim, cada um escreve por seus motivos. Cada um experiencia a escrita, e se relaciona com ela, da sua própria forma. Aquilo que se escreve também influencia o processo. Mas uma coisa nos une a todos, nós escritores que se sabem escritores e escritores que ainda não se sabem escritores: escrever, pelo motivo que for, é fantástico.
(mesmo que seja só para comer gente muda)

O parêntese final é descartável, mas eu o achei engraçado.


Hora de dormir.
Amanhã eu conto pra vocês que a sexta parte de O Cavaleiro e o Dragão já está na fila de edição do Overmundo...
Ops, já contei. :D

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7 de jun de 2007

Cavaleiro e o Dragão, parte 5

Para quem ainda não viu, a parte 5 de O Cavaleiro e o Dragão já está publicada no Overmundo. Sei que muitos de meus leitores fiéis já leram e comentaram por lá, o que me deixa muito feliz, mas nunca é demais avisar novamente àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler.

O Cavaleiro e o Dragão

- parte 1
- parte 2
- parte 3
- parte 4
- parte 5


p.s. a imagem do post é uma impagável foto de Haidee Lima usada originalmente no excelente post A Bula e o Escrevinhador, de Spirito Santo, no Overmundo. O post fala sobre a antiguidade e imortalidade das histórias e sobre a 'jornada do escritor' de Chris Vogler. Vale a pena conferir. Ainda vou acabar fazendo um post aqui sobre este post do Spirito. Eles (Spirito e post) merecem!

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Cantos de Luanda...

Descobri, através deste post no Global Voices Online o blogue poético-social Kitanda (e quem disse que blogues precisam de designações, Duende!?), recomendado pela colega angolana Koluki como "portal da blogosfera de Angola". No Kitanda (que, descobri, é uma palavra kimbundu para "mercado"), descobri esta letra de música da banda de hip-hop angolana Kalibrados. Reproduzo-a abaixo não apenas pela força e universalidade de seus temas, mas pelo delicioso sabor regional de sua linguagem.

"Fico malaíko com as cenas que constato
Queres ver Luanda, vê primeiro Ecos e Factos
Se água tem, energia não tem.
Se energia tem, água não tem,
nem tudo tá sebem.
A maioria não se importa é só tchillar
Sexta farrar,
sábado no bar,
segunda a kubar.
E Luanda vai morrendo lentamente.
Sem jovens para erguer uma capital diferente.
Se não formos nós, quem fará por nós?
O estrangeiro explora e foge
nunca querer saber de nós.
Não há estrilho, para tudo existe um prazo.
Nossa existência não é obra do acaso.
Digam de que forma a gente vai criticar,
vai relatar, não só Luanda,
Angola vai mudar.

Só a mudança para sarar minha ferida,
ua ué Luanda, amor da minha vida.

Essa é a minha, a tua, a nossa, vossa banda.
Essa é a minha, a tua, a nossa, vossa Luanda.

A preto e branco, como vês, nua e crua,
crua e nua,
conclusões efectua
O kimbundo? nana.
O português? Fala-se mal!
Não é normal,
em termos de linguagem, tá-se mal.
Luz, niente, água, niente.
É melhor eu me calar para não ser inconveniente.
O tempo da TPA, quase todo já foi-se.
Porque quase todos têm em casa, a Multichoice.
Channel O, MTV, KTV, CBC, SIC, Globo, RTPI.
Sim, a globalização tem força,
vemos outras culturas e esquecemo-nos da nossa.
Tu vês que eu não falo a toa.
Roulottes em Luanda é tipo cafés em Lisboa.
Reparem só, analisem com atenção:
sobre o preço da gasolina, sobre o preço do pão.
Sobe quase tudo, só o salário que não.
Bwé de makas, bwé de estrilhos, bwé de kilingas mayuya.

Mas mesmo assim, minha Luanda kuia.
Mas 'inda assim, minha Luanda kuia.
Mas mesmo assim, minha Luanda kuia.
Mas 'inda assim, minha Luanda kuia.

Bem-vindo a Luanda, a cidade que acontece,
onde todos são pausados, todos são kaenches,
onde há bwé de problemas, mas ninguém tá preocupado.
Muitos passam fome, mas tão sempre bem grifados.
Não há retalhos, problemas é a grosso.
Tá na moda formar grupo e dar com catana nos outros.
Tem dicas para rir, tem dicas pra chorar.
E o Luandense até nos óbitos, gosta de se mostrar.
Isso é Luanda, ninguém respeita nada.
Com conversa, não se entendem,
só se entendem com porrada.
Fico malaíko com o clima da cidade,
na porta da discoteca, todos são celebridade
Ninguém pode esperar, todo mundo quer ser visto.
"Hey brother, sou VIP". Comé, brother, evita isso!
Esse mambo tá empestado de ilusão,
Luanda é uma selva onde todos querem ser o leão."

Me encantei não apenas com o sabor da língua, que é o português e ainda é outra coisa -- marca da riqueza humana e cultural lusófona neste mundão -- mas também com sua semelhança e dessemelhança ao nosso português brasileiro. Li e reli a letra, e me deliciei com as palavras desconhecidas cujo significado só posso tentar adivinhar por seu contexto.

Tinha que acontecer cedo ou tarde. Estou me enamorando perdidamente pela lingua em todas as suas formas. Mais do que isso, estou percebendo como é enorme e rico o mundo lusófono. Antes de me envergonhar de descobrir o que pode ser óbvio, encanto-me ao olhar para aquilo que antes não via.

Essa língua portuguesa, com todas as suas cores, é muito gostosa!
Pode-se passar vidas e vidas a descobrí-la e a se brincar com ela.

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6 de jun de 2007

Quem aparece no romance brasileiro?

O Roberto Romano Taddei (rrtaddei) publicou em seu à guisa de blogue um post sobre a interessante pesquisa da Regina Dalcastagnè, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, sobre os personagens de romances brasileiros. A pesquisa compara os personagens de romances escritos entre 1965-1979 e 1980-2004, analisando sexo dos autores, cor e classe sexual das personagens, opção sexual das mesmas (personagens, não autores), e coisas do gênero. Vale a pena dar uma olhada.

Por falar nisso, o Taddei tem publicado muita coisa bacana. Tenho que me debruçar depois a pinçar mais umas coisas legais dele.

p.s. por falar em "muita coisa bacana", estou devendo mesmo um eco para este post aqui.


UPDATE:
O sapeca do Roberto Taddei resolveu unificar seus dois blogs em um terceiro blog (http://rrtaddei.wordpress.com/), e agora o link do post citado na matéria acima é este aqui.

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4 de jun de 2007

Rachel Capucci e companhia Dinastia Dell'Arti em temporada com "Lisbela e o Prisioneiro", em Brasília

Gosto de dar uma força para o trabalho dos meus amigos, principalmente quando é um trabalho bacana e feito de coração. É assim que funcionam as amizades, meus caros.

Minha amiga Raquel Capucci está se apresentando junto com a companhia teatral Dinastia Dell'Arti no espetáculo Lisbela e o Prisioneiro, em curta temporada na cidade quadradinha de Brasília. A ruivinha cursou Psicologia junto comigo na UnB mas, assim como eu, descobriu que a Arte vale muito mais a pena do que a ciência. Palmas para nós! :)



Vale a pena conferir o espetáculo e prestigiar o trabalho da timida mocinha de cabelos vermelhor que virou atriz. Estivesse eu em Brasília, já estava lá para conferir.

As datas e horários das apresentações são:

* 07 a 09 de Junho, no Teatro da Escola-Parque 210/211 Sul
Quinta, Sexta e Sábado, às 20hs.
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia para estudantes, professores, maiores de 60 anos e doadores de 1kg de alimento não-perecível)

* De 22 de Junho a 01 de Julho - Teatro Goldoni - Casa D'Itália - Sala Adolfo Celi
209 Sul - Entrada pelo eixinho L - tel: 3443-0606
Sextas e Sábados, às 21:15h e Domingos, às 20:15h.
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia para estudantes, professores e maiores de 60 anos)

Mais informações no post sobre o espetáculo, feito na agenda do Overmundo ou mandando um email para a companhia Dinastia Dell'Arti.

E para quem quiser dar uma espiada no visual desta montagem de Lisbela e o Prisioneiro, há um vídeo e uma colagem de fotos disponibilizados no YouTube.

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citação

"Eu tinha muita coisa na cabeça, isso me desarticulava.
Os melhores conferencistas são aqueles de uma única idéia.
Os melhores professores, aqueles que sabem pouco."
Rubem Fonseca em "O Caso Morel"

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3 de jun de 2007

dores do parto literário

Por quê será que escrever parece tão difícil às vezes?
Cada palavra parece sair a tanto custo, e tão feia e mal acabada. Cada frase parece cacofônica. Nada parece combinar, e tudo parece fora de esquadro...

Por quê será que é tão dificil escrever?
Não sei. Eu só sei que não vou desistir... NUNCA!

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As dores da revisão, e mais uma tentativa de libertar o capítulo 5 de O Cavaleiro e o Dragão.

Coloquei-me a reler a versão publicada da parte 4 de O Cavaleiro e o Dragão, e quase me deu vontade de chorar ou dar cabeçadas no monitor. Revisar um texto já publicado é sempre um sofrimento. Sempre acabamos achando que aquilo poderia ter sido tão mais bem escrito se tivéssemos lido e reescrito só mais uma vez...

Mas isso é apenas uma ilusão. A gente sempre acha que poderia ter feito melhor quando olha para trás. Talvez pudesse, se o estivesse publicando agora. Mas o que está feito, está feito. Temos que seguir em frente. E é o que me resta fazer. E eu termino minha releitura com pouco gosto, atento só aos dados que precisava "apreender" do texto pra guiar minha revisão da próxima parte, e sigo em frente.

Retomo a revisão da parte cinco com esperança renovada. Se há algum lugar em que eu posso fazer melhor do que antes, este é o lugar. Leio e releio o primeiro parágrafo umas 4 vezes, e o reescrevo em todas elas. A velha vontade de jogar tudo pra cima e ir dormir já começa a se insinuar novamente, mas eu persisto. Quando passo para o segundo parágrafo, já não há quase nenhuma palavra no mesmo lugar no primeiro parágrafo.

Esta vai ser uma longa revisão, mas vou deixar este fragmento tão bom quanto puder fazer hoje... e então publicá-lo e seguir em frente.

Somos quem somos, e só podemos fazer o que podemos fazer. Não adianta sofrer pela perfeição que não se pode alcançar. Então a gente vai fazendo, na esperança de um dia chegar lá.

Segue o trabalho...

(enquanto isso, para quem ainda não leu, as quatro partes já publicadas no Overmundo estão aqui.)


UPDATE:
Depois de mais uma penosa revisão, e ainda não totalmente satisfeito com o resultado, finalmente publiquei a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão no Overmundo. Está ainda na fila de edição. Ainda bem, pois não gostei muito da apresentação que escrevi no post, mas isso já é coisa para outra revisão... amanhã. :)

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2 de jun de 2007

Chuva. (mais um fragmento de "Samhain")

Conforme prometido, aí vai mais um fragmento de meu encruado e complexo conto Samhain. Este é um fragmento de seu início. Não tentem entender a conexão dele com o outro fragmento. Samhain é um conto surreal e cheio de surpresas...

Chuva.

"(...)Os carros buzinavam e passavam lentos, refletindo-se no chão molhado. O tráfego estava levemente engarrafado sobre o asfalto lavado da pista em frente à comercial. Chovia de leve no fim da tarde. O trânsito fluía devagar, quase hipnótico, deixando Rodrigo desatento a tudo mais. O garçom trouxe mais uma garrafa. Marcou um risco azul na comanda da conta. Foi embora. Rodrigo nem o viu. Não viu também a moça de cabelos pretos que passava ao lado da mesa. Ela também não o viu. A gente não enxerga aquilo que não conhece. Vivemos em mundos tão pequenos... E os carros continuavam buzinando e se refletindo no chão. Rodrigo continuava absorto, sem refletir sobre nada. Era um trivial entardecer repleto de nada. Enquanto isso, Alma entrava no carro e ia embora, para se juntar aos carros que buzinavam e refletiam sobre o asfalto. Nada demais.

Caía a noite do dia trinta e um de outubro, mas isso não fazia a menor diferença para a maioria da cidade. Fazia alguma diferença para Rodrigo, que costumava acreditar em velhos Deuses e outras coisas de que ninguém mais se lembra. Costumava, mas agora ele estava indiferente demais para se importar também. Bebia a sua cerveja sem gosto. Vivia sem tesão, pensando vez por outra na morte, mas desistindo também por pura falta de vontade de morrer. Havia chamado alguém para lhe fazer companhia, mas provavelmente ninguém viria. Era noite de quarta feira. Só pessoas como Rodrigo saem para beber em quartas feiras, por pura falta do que fazer. Mesmo assim, havia lá no fundo da garganta dele uma fome profunda por algo que ele não sabia o que era. Talvez fosse alguma coisa. Alguma coisa que o levasse além do nada que o cercava. Alguma coisa alada que queria voar acima do tédio das asas cubistas da cidade. Indiferente a tudo isso, chovia.

Quando a chuva engrossou e todos começaram a escapar, resmungões, das mesas que se molhavam, Rodrigo também se levantou. Não sabia se pagava a conta e ia embora, ou se ficava por ali olhando a chuva. Tanto fazia. Nada fazia diferença na noite vazia que antecedia mais um dia de trabalho vazio no amanhã. Então, Rodrigo ficou. Sentou-se em outra mesa, esta protegida do aguaceiro, pediu outra cerveja e se deixou olhando a chuva. Os respingos que o alcançavam e o molhavam aos poucos eram tudo que o separava da completa banalidade de beber silenciosamente sozinho em um bar onde nada nem ninguém o interessava. Gostava da chuva, mas não o bastante para se animar com ela. Contudo, ficou ali, por hora.(...)"


Não há garantia de que este fragmento vá permanecer inalterado ao longo da escrita do conto, nem sequer há garantia de que ele vá figurar na versão final de Samhain, mas resolvi publicá-lo para dar um gostinho do que ando escrevendo (embora, confesso, este seja um fragmento um tanto antigo, pois não tenho trabalhado em Samhain nos últimos dias).

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hora de escrever...

Então está certo. O Duende ativista e blogueiro cultural é legal, e eu gosto de sê-lo, mas está na hora de me debruçar nos meus escritos literários. Hoje não trabalho em prol de nenhuma outra causa, que não a minha prosa. Amanhã posso voltar meus olhos para outras rosas. Mas hoje eu serei só escritor. E assim é.

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