24 de mar de 2009

sobre o silêncio...

(...) Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma. (...)

(...) Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.

É preciso também que haja silêncio dentro da alma. (...)


(atribuído a Alberto Caeiro, que era pessoa e também Fernando Pessoa)

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21 de mar de 2009

mais um fragmento de L'th e o Cluracão...

Era uma vez um homem menino que guardou um momento dentro de uma garrafa de cerveja. Valendo-se das artes de sua velha alma, tomou o momento, as duas almas nele despidas, o sol da tarde que virava noite, e guardou tudo dentro de uma garrafa. Guardou-a em seu armário, a adorava em sua mente -- afagava-a em sua imaginação -- como se conseguisse tocar dentro dela as almas alí perdidas, morrendo pouco a pouco. Um dia ele abriu a garrafa e deixou tudo sair e se esvair no ar. Mas o dano já estava feito, e para sempre ele carregou no peito o pouco de morte que bem conhecem aqueles que amaram e partiram...

- Esta é uma história triste, L'th.
- Não. Esta é apenas uma história. Nem sempre me recordo dela como deveria.
- Você...!?
- Vamos tomar uma cerveja, cluracão.
- Humm... tá bom. Você não quer falar sobre isso...
- Já falei.
- Você paga?
- Como sempre...

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4 de mar de 2009

Scribbled in the mists...

"How come you never remember your own words when you most need them!?
You are the weaver of your own history! Do us a favor and don't forget it again, ok?"

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3 de mar de 2009

...

"a coisa mais triste que existe é a morte dos sonhos..."

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Sunset to a colorblind man



nove de novembro de dois mil e seis.
sony-ericsson k750i.


I have been there many times before.

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Memórias de Yirrdyn Duirfel II

(Memórias do druída Yirrdyn Duirfel, rascunhadas em papiro duro ao longo de uma viagem pelas savanas do Ocidente Athasiano)

"Começou a nossa caminhada em direção ao destino. Enquanto meus companheiros de caminhada descansam depois de uma árdua caminhada e de mais uma batalha contra a morte, sento-me debaixo de uma destas árvores retorcidas para escrever minhas memórias nestes papiros que me foram providenciados pelo Venerável Púkpuk na última vila Halfling que estivemos. Muita coisa aconteceu nos últimos dias, e minha alma turbilhona em meio a todos os acontecimentos, mas vou tentar narrar com a serenidade das árvores que me cercam neste anoitecer todos as aventuras que tivemos desde que deixamos o verde platô onde caímos neste mundo estranho. Vou me aproveitar da minha estranha falta de sono -- possivelmente obra deste manto verde que agora se crava em minhas costas como uma orquídea nos flancos de um carvalho -- para escrever estas memórias enquanto espero pelo venerável druída PúkPúk, que me adiantou que teríamos uma importante conversa hoje.

Que a minha ansiedade e as paixões que fervilham em meu coração não desviem minha pena...


Chegando à Aldeia dos Halflings

Quando escreví minhas últimas rememorações, estávamos a caminho de uma vila de halflings onde PúkPúk havia dito que encontraríamos abrigo e aprenderíamos muitas coisas. Ele estava certo, mas creio que nem ele imaginava o que nos esperava por lá. O último dia de caminhada em meio à frondosa floresta do platô foi tranquilo, e ao nos aproximarmos da vila já podíamos entrever suas construções simples, nada mais do que tendas rústicas de um tecido esverdeado, construídas entre as árvores. De fato, só pudemos avistá-las muito de perto, pois a arte destes halflings não apenas em construir em harmonia com a floresta que os cerca e abraça, mas também de ocultar seus lares dos olhares estranhos, é provavelmente lendária. A noite já se adiantava quando chegamos à aldeia e nosso venerável guia PúkPúk decidiu, após uma rápida conversa com os outros halflings da vila, que deveríamos acampar do lado de fora.

Tão logo nos fizemos confortáveis, algo muito estranho aconteceu. Um homem estranho, vindo aparentemente de lugar nenhum, surgiu flutuando sobre nossa fogueira. Tinha a pele trigueira e a cabeça raspada, ou talvez nunca tivesse tido cabeleira, e da testa castanha nos observava, por cima de seu rosto duro que ria com sarcasmo, um terceiro olho. Tudo aconteceu muito rápido depois disso. O homem, usando aquilo que depois descobrí ser "a vontade e o caminho", um tipo de poder místico que vem da mente e não da magia arcana, levantou uma gigantesca árvore para ameaçar PúkPúk e a nós. O venerável druída, por sua vez, vestiu a forma de um enorme gigante de pedra, amedontrando o nosso estranho visitante, que partiu deixando a árvore desterrada para trás. Sentí muita tristeza pela árvore cuja vida foi ceifada por pura crueldade e agressividade, mas confesso ter ficado aliviado ao ver que mais estrago não foi feito. Mais tarde, na mesma noite, PúkPúk nos explicou que aquele era um dos homens de terras distantes que estariam a nos caçar dali em diante. Logo, nossa presença na vila representava perigo para os halflings que lá habitavam. Antes mesmo de adentrar a aldeia halfling que era nosso destino nesta caminhada, já descobrimos que não teríamos tempo para descansar e aprender mais sobre este lugar.


A Noite é Longa na Vila dos Pequeninos

Depois da terrível visita, abandonamos nosso acampamento na orla da vila e pedimos abrigo para os pequeninos. Pude perceber então que, apesar da aparência mais rústica e primitiva desta aldeia em relação à anterior, seus moradores nos eram mais amistosos. Se na primeira vila, o clima entre eles e nós era de hostilidade velada que podia a qualquer momento se transformar em agressão, nesta vila eles se limitaram a nos evitar e nos olhar curiosos a uma distancia segura. Pelo que me parece, PúkPúk se comunicava bem melhor com os halflings desta vila do que com os halflings da vila anterior, embora me pareça que sua moradia mais frequente seja a segunda e não a primeira, mas o venerável druída teve que se valer de sua autoridade druídica em sua conversa com alguém que parecia ser o líder da vila para que pudéssemos lá descansar. E de fato, tal autoridade surtiu um efeito que certamente agradou a meus companheiros. Primeiro recebemos uma lauta refeição, com porções generosas de pratos da culinária simples dos aldeões halflings. Depois de satisfeitos em nosso apetite de caminhante, fomos instalados em uma ampla tenda, aparentemente mais ampla do que aquelas usadas como moradia pelos halflings da aldeia, cujo chão era feito de sólida cerâmica. Se se tratava de um luxo, ou de uma precaução contra alguma coisa que nos escapava à compreensão, ainda não sei. De qualquer forma, meus companheiros se acomodaram bem enquanto travávamos a última conversa da noite com PúkPúk. Foi então que o venerável druída nos disse que teríamos que partir no dia seguinte, e que teríamos dois caminhos entre os quais escolher. O primeiro era mais seguro, porém mais longo, e seguia através de uma rampa natural que nos levaria até o pé do plateau. O segundo, mais curto porém mais perigoso, nos levaria direto através do precipício de mais de 300 metros que nos separava das terras abaixo do platô. A decisão sobre o caminho a tomar ficou no ar, mas na manhã seguinte a decisão seria tomada à nossa revelia, e felizmente seria uma sábia decisão, tomada pelo venerável PúkPúk.

Durante a refeição, por pura curiosidade, retirei o mapa Githian-ki de dentro da mochila que encontrei dias antes dentro do enorme barco voador. Por pouco esta cúpida decisão não nos causou problemas, pois descobrí se tratar de um mapa mágico, cujas imagens saltavam magicamente do papel para formar uma imagem com altura, largura e profundidade. Parecia se tratar de algum tipo de mapa de estrelas, ou de esferas, ou de planos. O fechei tão rápido quanto o abri, para evitar problemas, mas minha curiosidade ficou atiçada e, espero eu, aprendi uma lição importante sobre os riscos de se bolir com os achados da viagem na presença dos habitantes deste mundo que, por bons motivos, temem e odeiam a magia arcana. De fato, que idéia estúpida foi aquela, Duirfell! Certas coisas devem ser feitas longe de quaisquer olhares. Será que agora aprendí isso? De qualquer forma, fica a impressão de que este mapa ao mesmo tempo nos traz perigo e uma excelente moeda de negociação com os Githian-ki. Temo que iremos descobrir cedo ou tarde sobre quão boa é a moeda, e quanto perigo ela nos traz...

Mas me desvio de minha narrativa, e ainda há muito a narrar. Na mesma conversa em que nos falou sobre os dois caminhos que teríamos a seguir, PúkPúk também nos falou sobre o terrível assobio que ouvimos na batalha contra os terríveis macacos de dois braços, e que voltamos a ouvir quando o malévolo visitante arrancou a árvore de sua terra nutriz para nos ameaçar. Tratava-se "da vontade e do caminho", como já falei antes. Uma forma estranha de poder que vem puramente da mente, e que não é nem magia arcana nem dom divino. Este é um mundo estranho com coisas estranhas, mas que me mostra cada dia mais sobre o quanto eu não sei, e sobre o quanto ainda preciso aprender e descobrir em meu caminho rumo a meu destino.

A última frase de PúkPúk antes de nos deixar sozinhos com nossos pensamentos e com nosso cansaço na tenda ficou ecoando em meus ouvidos, ao mesmo tempo me assustando e me excitando com um sentimento de que coisas grandes e temíveis nos esperavam. O venerável druída disse que "estávamos indo em direção às terras onde o mal começou"...

Farto do silêncio exterior, interrompido apenas pelo passar das páginas do estranho livro do ogrillion e pelos ruídos feitos pelo resto de nosso grupo que descansava ou ocupava-se de seus afazeres -- um quase silêncio que apenas tornava mais ruidosos os meus pensamentos -- decidi deixar a tenda para me deitar entre as árvores e comungar com a natureza e com a vida. Caminhei por alguns minutos entre as árvores depois de deixar a tenda, ora observando a aldeia que dormia -- com excessão dos bem escondidos sentinelas que montavam guarda -- ora me voltando para a beleza alienígena, forte e ligeiramente melancólica da floresta que nos abraçava. Por fim, parei debaixo de uma das frondosas senhoras árvores e me pus a conversar com um pequeno animal espinhoso, que me contou sobre sua comida, sobre os predadores que temia, e sobre a escassez de água e chuva nestas terras. Agradecí ao animal, que se ocupava agora de buscar comida, e me voltei para a frondosa árvore. Com ela também conversei sobre o tempo e sobre o clima, e tentei entender melhor a vida vegetal daquelas terras. A mesma árvore me contou que o terrível visitante ainda espreitava, e que outros como ele poderiam estar nas redondezas. Agradecí então à árvore, e pedi permissão para me deitar entre suas raízes, e me deitei então vestido com o céu e com a mata para meditar e me conectar com a vida e com a natureza. Meditei até o adormecimento, e quando adormeci tive sonhos intensos, poderosos e... proféticos.


O Sonho em Meio à Floresta

Naquela noite sonhei com distâncias e saudades. Sonhei com o belo lago de águas que curam e refrescam, e com o arvoredo salpicado de neve, e com a mais bela de todas as árvores que já conheci. Sonhei com Sylvia. E ao mesmo tempo me senti feliz em rever seus olhos tão profundos quanto suas raízes e seu corpo esguio a dançar no vento, e triste, imensamente triste, pela gigantesca distância que nos separava. Tão grande que eu poderia levar vidas inteiras, vestindo a forma do homem ou vestindo a forma do pássaro, para conseguir vencer todas as lonjuras que nos separam. Tão longe, porém ainda tão perto, em meu peito, eu pude ver e sentir Sylvia, e foi bom e doloroso. Sylvia das verdes folhas tripartidas que acariciavam meu rosto trazidas pelo vento, em mergulho incerto, enquanto eu dormia entre suas raízes. Sylvia que tomava a forma de mulher e corria e brincava e amava como ninguém nunca o fez, e nunca fará, e que para sempre será Sylvia, como foi antes de eu nascer, e como continuará sendo depois que minha forma passageira for varrida da existência pelo Movimento. A Sylvia que amo e deixei, pois assim mandou o Movimento, que é ainda maior e mais forte do que o amor, esta coisa de homens. Sylvia que me ama, e que vai além deste amor, como sua raízes que mergulham infintamente mais fundo do que meus pés que mal tocam a terra que nos nutre. Sylvia...

Sonhei com Sylvia, e em sonho conversei com ela, e sei que este era um sonho real. Pedi desculpas, infinitas e inúteis e desnecessárias desculpas por ter partido, e ela me entendeu, como sempre me entendeu muito mais do que pude me entender, em sua infinita sabedoria de árvore. Prometi que voltaria um dia, e ela apenas sorriu, sabendo que promessas são apenas promessas, e que o Movimento é o que nos leva e nos traz. Mas sinto que no fundo, lá no fundo de seu coração verde, ela também anseia por minha volta. Disse a ela que, não importa quanto tempo levasse, eu voltaria, e ela me disse que ela tinha todo tempo da existência, um tempo que me faltava e me escorria a cada momento. E eu ainda assim insistí que voltaria, e que trilhava o caminho do druída em busca de transcender até mesmo o tempo, e me tornar o servo último e mais perfeito do Movimento, e que ainda estaria com ela. Ela sorriu. Tolo eu, sábio eu, druida bardo apaixonado... e ela apenas sorriu e se foi, no sonho verdadeiro que a mata me trouxe e levou embora...

Sonhei então com dias. Dias que vinham um após o outro. Dias que se seguiam infinitamente, se sucediam, dia após dia após dia. E sonhei com o céu. Sonhei com o sol, que a cada dia levantava e depois se deitava para dar lugar à noite. O sol que mudou lentamente de cor, tingindo o céu, até se tornar negro. Sonhei com o cataclisma, com a abominável desgraça que foi trazida sobre este mundo pelos terríveis homens e dragões, sedentos de poder arcano, que destruíram este lugar, feriram a Vida e a Natureza e desequilibraram o Movimento. Sonhei com o desastre, e somado à distância e ao tempo, o desastre feriu minha alma ainda mais.

E foi então que minha alma ferida, errando pelos campos do sonho, deparou-se com aquele que a feriu. O terrível visitante estava lá, a menos de um quilômetro de nós, aguardando, espreitando, tramando. O horror daquela visão me despertou, tomado em suores, e mal tive tempo de vestir minhas calças antes de correr de volta para a vila para avisar o venerável druida PúkPúk e meus companheiros de viagem sobre aquilo que tinha visto -- ao menos no que dizia respeito ao visitante que ora nos caçava. Mas ao chegar à vila, me deparando com os preparativos para nossa partida, com a decisão supreendente de PúkPúk de nos levar por ainda outro caminho além dos expostos na noite anterior, e com a estranha oferta que nos aguardava antes de partir, acabei não tendo tempo de relatar meus sonhos então...


O Presente dos Pequeninos

Antes de nossa partida, e aparentemente um tanto incerto de sua decisão, o líder da aldeia afirmou que nos daria um presente por nossa bravura, e em nome da corajosa empreitada a qual nos lançaríamos. Não explicou muito então, e o venerável PúkPúk nos disse apenas que se tratava de um presente diferente daquilo que estávamos acostumados. Disse que não era um presente como os do povo azul, seja qual for este povo, e que se tratava de uma forma de presente vivo, algo que os povos do oriente podiam vir a não considerar um presente. Disse também que o os halflings nos achavam exóticos e que o líder da aldeia estava contrariado em nos dar aquele presente -- por um lado não entendia de onde viemos ou quem somos, e por outro não conseguia entender por quê nos lançariamos na empreitada que nos aguardava -- mas mesmo assim decidira nos presentear. Acredito que mais uma vez havia ali a mão do venerável druida a nos ajudar por trás daquilo tudo.

Caminhamos por algum tempo, com o sol ainda nascendo, na companhia de PúkPúk, do líder da tribo e de mais uns 10 halflings por vários caminhos em meio à floresta fechada. Não se tratava de uma picada. Estranha e encantadoramente, mais parecia que as árvores haviam apenas crescido de tal forma a indicar um caminho -- um corredor -- entre elas. E este caminho nos levou até uma gruta repleta de ruínas. Neste momento o venerável PúkPúk me contou que o povo da aldeia havia perdido muito de seus preciosos conhecimentos -- uma geração se foi, e com ela o conhecimento -- e que agora este conhecimento estava morrendo. Eu quis muito, naquele momento, ter tempo de ficar e aprender todas estas coisas, e servir a minha função de elo entre os homens e a natureza, atravessando o tempo e buscando o equilíbrio. Mas não parece que seja aqui que o Movimento vai me levar agora, e então este foi apenas mais um desejo que ficou na beira do caminho. Um desejo pequeno, perto da minha vontade de partir para reencontrar Sylvia. E todos estes desejos ficam cada vez mais distantes conforme caminhamos rumo ao oriente.

O venerável druida também nos disse que nesta região podem ser encontradas várias outras ruínas dos antigos halflings, e que em muitas delas se pode encontrar "coisas" como as que nos serão presenteadas. Mas me admoestou que ao contrário dos presentes que nos seriam dados momentos depois, aquilo que encontraríamos nas outras ruínas poderia ser perigoso, dotado de vida, inteligência e desígnios próprios...

De qualquer forma, concluiu o druida, aquilo que receberíamos nos mudaria para sempre. Olhando agora para as raízes que se entranham em meu ombro e em meu pescoço, e para a forma como este manto está me transformando -- fazendo com que eu não tenha sono, e que hora tenha muita fome, hora pareça conseguir passar muito tempo sem beber ou comer -- eu acredito que o venerável PúkPúk esteja completamente certo. Não sei o que é isto que recebí, mas confio em quem me presenteou e, mais ainda, em quem me recomendou a aceitar o presente.

Quando adentramos as antesalas da gruta, fiquei maravilhado com as vistas de seu interior. As grutas pareciam ser enormes e complexas, embora delas tenhamos visto apenas as antesalas. Pareciam ter sido feitas com arte e seriedade, fruto de um conhecimento muito antigo que nunca foi deitado em papel e nunca será. Um conhecimento oral que está morrendo... e que talvez seja mantido apenas por algumas outras poucas pessoas, aqui e ali neste mundo abrasado pelo sol quase negro.

Água cristalina precipitava-se do teto, banhando as rochas, esculpindo-as e moldando-as de diversas formas -- formas que vão além dos dons que hoje tenho de esculpir e moldar as coisas naturais. Entre as rochas esculpidas, havia algumas que pareciam ter sido esculpidas na forma de grades. Aparentemente um criatório para algo. Aqui e alí se via cestas e sacos de algum tipo de farinha. De alguma forma, parecia ser um tipo de ração para o que quer que fosse alí cultivado, ou criado. E havia muitos, muitos mesmo, destes criatórios de pedra. Alguns eram tampados, enquanto outros estavam abertos. Alguns deles recebiam sol direto, através de passagens no teto da gruta, enquanto outros ficavam na escuridão dos cantos escuros. Havia seres, aparentemente mas não exatamente vegetais, que se agarravam às pedras nestes criatórios. Formas de vida que até então desconhecia, e que agora começo a conhecer pouco a pouco na minha própria carne, com o perdão do trocadilho.

A elfa foi a primeira a ser presenteada, e eu mal sabia para onde direcionar minha atenção -- para os criatórios com suas maravilhosas e intrigantes formas de vida ou se para o presente que ela receberia. Pude notar que ela recebeu duas frutas alongadas -- ou seriam vermes? -- de um dos halflings, que parece tê-la orientado a engolí-los. E foi com dificuldade que ela o fez, fazendo depois uma expressão que era um misto de desconforto e dor. Não tive tempo para atentar muito para sua reação, pois logo depois surgiu um dos halflings trazendo um estranho manto, vindo na minha direção.

E foi esta a primeira vez que ví o manto que agora -- vive -- em minhas costas. É um manto sem capuz feito de um tecido semelhante ao das tendas halflings, com o mesmo tom de verde profundo e rico. Parecia ter sido remendado e alongado para adequar-se ao meu tamanho, o que me fez pensar sobre a importância que alguém deve ter dado a me presentear este manto. Sobre o tecido, como que vivendo sobre o mesmo, havia uma forma de vinha, algo como uma trepadeira de finos e maleáveis filamentos que se entranhavam na trama do tecido e cobriam tanto o interior quanto o exterior da capa, fazendo com que ela ganhasse uma aparência ao mesmo tempo vegetal e estranha. Logo no primeiro momento pude ver que aquele era um manto de druída, ou assim apenas me pareceu, e muito me honrou este pensamento. Mas meus pensamentos honrosos foram interrompidos pelo halfling que, com a ajuda de PúkPúk, me orientou a remover o meu manto e minha blusa. Depois disso, fui orientado a me ajoelhar, e no último momento pensei sobre o estranho fato do manto não ter um fecho ou uma clavícula para afixá-lo. Mas não tive tempo de pensar muito sobre a falta de fecho do manto. Tão logo este foi colocado sobre meus ombros, os filamentos da vinha que cobria o manto começaram a se mover. Lenta mas inexoravelmente, os finos filamentos começaram a penetrar a minha pele, perfurando meu pescoço, minha nuca, minha espinha e meus ombros. A dor foi indizível, e eu fiz o que pude para não gritar -- sem sucesso. Quase tombei sobre minha barriga enquanto tentava reprimir os gritos, e durante todo o tempo, gentil porém dolorosamente, os filamentos da vinha continuavam penetrando e se misturando com as fibras de minha própria carne. Da mesma forma que começou, acabou, e fui deixado pelo halfling para tentar retomar a compostura perdida. O manto, que agora me parece tão animal quanto vegetal, sem ser exatamente nenhum dos dois, só foi começar a mostrar suas propriedades depois. Mas já desde aquele momento eu soube que outra forma de vida estava alí, e que sua companhia seria uma certeza por muito tempo. Alimentava-se de meu sangue, pelo que eu podia sentir, e também da luz do sol, como pude perceber depois. E ainda estou descobrindo o que me dá em troca.

Mal pude erguer o olhar para presenciar o presenteamento do Ogrillion. E se o fiz, minha dor teria se tornado menor, se tal coisa fosse possível, ante a dor à qual ele foi sujeitado para receber seu presente. Primeiro ele foi amarrado a uma árvore, e depois recebeu algo forte -- em grandes quantidades -- para beber. Mesmo assim, foi por pouco que não urrou de dor quando lhe cortaram os tendões com cortes secos e rápidos. Meus olhos cruzaram com os olhos da elfa, e partilharam a mesma perplexidade. Enquanto isso, um halfling trazia algo que lembrava um feixe de cipós, e os introduziu pelas feridas abertas no ogrillion. Algo me diz que a partir de um certo momento, os cipós também estavam entrando por conta própria, penetrando a carne do corpanzil de Grugik em busca de seu lugar entre tendões e músculos. Mais uma vez, o grande guerreiro lutava bravamente contra a dor e contra a própria afã de gritar, e quando as feridas foram curadas ele ainda aparentava sentir dor. Fomos deixados então, por um tempo, para nos reestabelecermos depois deste estranho presenteamento, e depois partimos em direção ao despenhadeiro.


Caminhando Pelas Árvores

Chegamos ao despenhadeiro ainda abalados e encantados com nossos presentes. Da beirada do platô, no belo mirante contraforteado por majestosas árvores que desafiavam o despenhadeiro, podíamos avistar as terras que se extendiam lá embaixo. A vegetação parecia bem diferente, mais esparsa, característica de uma região mais seca e com o solo mais forte. Uma primeira visão de como o terreno vai mudar conforme caminhamos. Do mirante era possível ver também enormes estruturas, aparentemente elevadores movidos por alguma força física ou desconhecida, construídos com uma engenharia que definitivamente não era a dos halflings. O venerável PúkPúk nos informou que não usaríamos os elevadores -- eram muito arriscados, e ele disse não confiar naquela engenharia -- mas que "caminharíamos através das árvores" para chegar lá embaixo.

Nos explicou então que com seus poderes iria nos transportar de uma árvore do despenhadeiro, através do verde e das redes de raízes que cruzam a terra, até outra árvore ao pé do paredão. Contou-nos que havia pedido permissão a estas árvores para esta viagem, e que por isso ela seria segura, mas que não poderia nos levar mais longe desta forma porque "as árvores do pântano são más, e algumas delas não são mais árvores". As palavras de PúkPúk me lembraram de meu sonho, e contei a ele que havia visto o terrível visitando bem próximo de nós. Ele me contou então que já sabia da proximidade do vilão, e que devíamos nos apressar. Contei também sobre o enorme elemental que havia aparecido em meio às chamas do colossal barco no qual caímos neste mundo, e em resposta ele apenas sorriu e disse que os senhores do fogo tem uma grande fome por esta floresta, pois quase todo o combustível deste mundo já foi queimado e eles precisam de mais, sempre mais. Perguntei se havia feito a coisa certa ao deixar para trás o elemental, e ele disse que não fazia parte do Movimento que eu fizesse alguma coisa a respeito. Foi neste momento também que o venerável druída me segredou que, pouco antes de nossos caminhos se separarem, gostaria de conversar comigo e me dar também um presente. Não tive chance de perguntar mais sobre isso, mas aguardo agora, enquanto as horas passam, pela vinda de PúkPúk para conversarmos, o que significa que em breve nossos caminhos irão se separar.

Nos reunimos então em semicírculo à volta da majestosa árvore que seria o portão de entrada em nossa caminhada pelas árvores. Greyfeather, cujo corpo cresce a cada dia sem perder a graça natural aquilina embora seja hoje já maior do que o de uma harpía, pousou sobre as costas do Ogrillion, que neste momento já estava também carregado com quatro enormes cabaças de água que nos manteriam hidratados em nossa caminhada vindoura. E foi então que demos as mãos e, pelos dons do venerável druída PúkPúk vencemos os mais de trezentos metros de despenhadeiro em um estalar de dedos. Foi uma experiência impressionante e desorientadora, e levei vários momentos para conseguir retomar o equilíbrio. Quando por fim aqueles que estavam desacostumados com esta forma de viagem se reestabeleceram, começamos nossa caminhada através da savana, rumo ao oriente.


Uma Longa Caminhada

A vegetação abaixo do platô é bem mais esparsa, uma espécie de savana, e o ar é seco e empoeirado. Se antes eram as árvores que toldavam nossa vista do horizonte, aqui é a poeira que nos mergulha em um mundo mesclado de tons arenosos salpicados aqui e ali com o verde escuro e resiliente das árvores. Caminhamos em fila pela vegetação de árvores retorcidas de casca grossa, conversando pouco. O venerável druída nos deu uma fruta muito suculenta, mas exatamente algo como um gomo de uma enorme romã, para comermos. Disse que isso nos protegeria do sol, e de fato, apesar do sol escaldante, conseguimos caminhar bastante.

Em uma ou outra ocasião tentei conversar com o Ogrillion que caminhava logo atrás de mim, mas sua atenção parece cada dia mais drenada pelo amuleto que traz no pescoço e pelo livro que lê todas as noites. É como se as magias arcanas com as quais está infundido estivessem roubando sua atenção, sua presença, sua percepção e, temo, seu bom senso. Tentei avisá-lo sobre os riscos de bolir com magias arcanas poderosas e desconhecidas, principalmente quando não se é um estudioso delas. Mas ele parece não dar ouvidos. Mais do que isso, mal parece me ouvir. Certamente o medalhão o está concedendo diversos poderes -- ele agora começa a falar línguas que nunca antes falara de um momento para o outro, e tem uma luz diferente nos olhos e uma vibração diferente e estranha no corpo -- mas tenho muito receio do preço que ele terá que pagar por isso e, pior ainda, pela completa falta de consciência dele a respeito disso. Temo que em breve tenhamos que agir para evitar um mal maior.

Quando paramos para acampar depois de um longo dia de caminhada, instruí Greyfeather a ajudar os elfos na vigilância do acampamento e me deitei para dormir. Qual não foi a minha supresa quando, por mais que passassem as horas, o sono não vinha. Pelo contrário, sentia-me completamente descansado, como se não tivesse ficado cansado mesmo depois de caminhar tantas milhas. Cochilei algumas vezes, um sono breve, leve e sem sonhos, e pouco depois sempre me via acordado olhando para as estrelas e imerso em pensamentos. Quando, com os primeiros raios de sol, nos preparamos para levantar acampamento, senti muita fome. Mais do que de costume, e a saciei alegremente com a comida que nos foi oferecida por PúkPúk. Foi o primeiro momento em que realmente sentí que meu corpo está sendo transformado pelo manto que se enraíza em minhas costas.


O Perigo Vem do Céu

Caminhamos um bocado neste segundo dia de viagem. Em certo momento, chegamos a um ponto em que a vegetação se tornava mais esparsa e sinistra, e em uma enorme árvore morta se via pregado um urubú morto atado aos galhos. Um claro símbolo druídico que estávamos adentrando terras perigosas, onde mesmo os fortes que vivem da morte correm perigo. PúkPúk nos explicou que nesta região vivem criaturas que se alimentam de vida e de almas para poder viver. Criaturas que estão vivas, porém se alimentam de almas, como os mortos que não descansam. Disse também, apenas para mim, que em breve iremos nos encontrar com um amigo dele, e que então ele deseja conversar conosco para que então nossos caminhos se separem e sigamos viagem na companhia deste novo guia. O pensamento de que PúkPúk vai nos deixar me deixa intranquilo. Sua presença ao mesmo tempo paternal e tutoral me dá segurança, mas já podia entrever que o Movimento separaria nossos caminhos em breve. Era como tinha que ser.

Seguimos viagem mais um pouco, até que o perigo espreitou do céu e se precipitou sobre nós na forma de um enorme lagarto verde, cujas escamas pareciam mudar de cor para se misturar com as cores do céu. Mais terrível que sua cabeça reptiliana e suas garras, ou que suas enormes asas coriáceas, era o grande e peçonhento ferrão em seu rabo. Só o vimos quando ele já estava sobre nós, e fomos atacados completamente de surpresa. A besta voadora atacou Grugik, e o feriu com seu ferrão, apenas para continuar voando. Estava claro que iria nos atacar de rasante em rasante e, se não fôssemos capazes de espantá-la ou matá-la, seríamos nós a morrer.

Me puz a recitar de improviso uma poesia inspiradora, enquanto Leishtar disparava flechas contra a besta voadora e o resto do grupo se preparava para o combate. E são com estes versos que narro o combate que, por fim, vencemos quando a elfa, em total porém oportuno desrespeito por nossas admoestações, teceu com suas magias arcanas colunas de chamas para afugentar a criatura. Seguem os versos, da forma que minha memória se recorda deles...

seguiam viagem os caminhantes,
seguindo o movimento,
quando o perigo veio do céu
interrompendo-lhes o intento

nao temei, nobres viajantes,
o perigo que vem do céu!
se suas asas sao enormes,
nossa coragem é como o mel

a besta verde volteia no céu,
chovendo sobre nós com perigo.
mas nada temos a temer,
pois o destino é nosso amigo

as flechas élficas certeiras
ferem a besta que volteia.
com a lança empunhada para o céu
espero pela carga traiçoeira.

Grugik empunha seu montante,
rugindo contra a besta que mergulha.
se cruzam os corpos enormes
e o desfecho nao me orgulha.

Mas é assim a batalha, é movimento,
o sangue jorra de ambos os lados,
E apenas a coragem nos salva
de corrermos todos desesperados.

A besta verde voa ligeira,
segura de sua vitória,
mas é da noite que surge o dia
e assim será a história.

Dedos ágeis tecem magias,
disparando chamas contra o ar,
e a certeza da besta se esvai.
sabe que no fim nao vai triunfar.

Assustada, a besta bate em retirada,
Certa de que nao poderia vencer.
E por fim sabemos agora
Que mais um dia iremos viver.


Após o combate, que drenou as forças e o ânimo do grupo, decidimos que não continuaríamos a viagem naquele momento. Melhor seria agora montar acampamento para almoçar e descansar. Grugik, o ogrillion, ficou um bocado ferido pelo terrível ferrão, e o veneno da criatura em seus ferimentos era motivo de preocupação. O venerável druida PúkPúk usou de seus dons para neutralizar o veneno que já corria nas veias do volumoso guerreiro, e que poderia terminar por matá-lo. Quando por fim respiramos aliviados, o venerável druida PúkPúk criticou severamente a elfa por ter se utilizado de magias arcanas. Conversei com ele, tentando apaziguá-lo, e ele me disse que quando partisse, a elfa seria responsabilidade minha, e que seus atos pesariam sobre mim. Completou também que foi apenas por causa de minha intercessão que ela continuava viva, não tendo sido comida pelos halflings da primeira aldeia. Conversei com a elfa, e expliquei da melhor forma que pude a situação. Embora esteja completamente convencido de que a magia arcana destruiu e está matando os últimos resquícios de vida deste mundo, ainda considero difícil comunicar isso a um mago de meu mundo. De qualquer forma, deixei bastante claro que mesmo que ela consiga tecer magias arcanas sem destruir visivelmente o ambiente, ela deve evitá-lo ao máximo. Mais do que isso, falei para ela que se ela sucumbisse à tentação de começar a sua magia de forma a destruir a pouca vida que resta neste mundo, seria meu dever impedí-la. Foi difícil falar isso para alguém que tenho como companheira de viagens, e a quem confio também a minha vida de alguma forma, mas era o meu dever. Todo homem é livre, contanto que saiba cumprir os seus deveres e defender sua liberdade. Eu faço a minha parte.

Depois disso, preparamos um rápido almoço, mas percebi que não sentia fome. Era como se o manto estivesse me provendo forças e alimento, em troca do meu sangue, ou ao menos assim me parece. Ainda não penso entender o que este manto é, e que efeitos tem sobre mim.

Então (...)"

(a narrativa termina aqui, no meio da 4a folha, provavelmente interrompida pela chegada de PúkPúk para conversar com Duirfell...)

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Por quê Yirddyn Duirfel escrevia memórias?

"Yirrdyn Duirfell foi um bardo antes de ser um druída. De fato, antes de ser um bardo, Yirddyn já era uma alma inquieta que precisava se expressar, e foi isso, e a sede de viajar e conhecer o mundo, que o tornaram um bardo viajante no início de sua juventude. Já naqueles tempos Yirrdyn mantinha um diário, que se perdeu em algum momento entre suas caminhadas e os ritos de passagem que o tornaram um druida. Desde então, Duirfell não havia deitado uma letra sequer no papel. Mas quando suas viagens o trouxeram para longe de Sylvia e de seu mundo, a enorme inquietude que tomou sua alma demandou que ele pudesse estravazar seus pensamentos e sentimentos de alguma forma -- e expor isso ao grupo de quase desconhecidos com o qual viaja estava fora de cogitação. Foi então que, apesar das proibições que demandam que druídas não escrevam memórias ou relatem por escrito qualquer coisa que seja, Duirfell começou a manter anotações sobre suas aventuras. É claro que ele as mantém em segurança, da melhor forma que pode, e só se deixa a escrever quando está sozinho e longe do resto do grupo, mas é mais claro ainda que se estas memórias vazarem ele estará em apuros -- não apenas pelo tanto que elas revelam sobre ele e sobre suas andanças, mas também pois o ato de escrever é considerado tabu, ao menos entre os druidas do mundo onde ele veio. Mesmo assim, correndo riscos, Duirfell escreve. É a única forma que ele tem para lidar com os acontecimentos de sua vida. É também, de certa forma, a evidência da chama bárdica que nunca se apagou em seu coração, mesmo depois dos ritos de passagem druídicos."

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Quando morrem os sonhos.

Ligou o carro, que rateou um pouco antes de pegar. Engatou a ré e saiu da vaga. Cruzou rapidamente com seus próprios olhos no espelho retrovisor. Eles não diziam nada. Quando engatou a primeira e acelerou, o carro saiu com um pulo. Assustou-se com seu próprio gesto. Viu que era engraçado, mas não sorriu. Não havia achado mesmo graça. Saiu do estacionamento, dirigindo quase que automaticamente. Ao parar no primeiro sinal vermelho, acendeu depressa um cigarro para não pensar. Tragou sem sentir, o sinal ficou verde, ele engatou a primeira e saiu, mais suavemente desta vez. Continou dirigindo quase automaticamente para casa. Desviava os pensamentos de si mesmo, e de toda a sua vida. Era apenas um homem voltando para casa sozinho, fumando seu cigarro, sem pensar em nada. Esta anonimidade dentro do universo de si mesmo o confortava. Não que ele precisasse de conforto. Não sabia o que estava sentindo, e isso era bem próximo naquele momento de sentir nada. Ou então ele fingia. Devia estar fingindo bem, ou desviando a própria atenção, pois nisso também acreditava. Quando o cigarro acabou, jogou o filtro quebrado pela janela e continuou dirigindo. Olhava distraído as janelas dos prédios pelos quais passava. Quase se distraía. Apenas o ato de dirigir o mantinha conectado à realidade. Seus pensamentos se desviaram para outro mundo, para outras vidas, outros lugares... outros ele que não eram. Tudo para não pensar. Tudo para não sentir. Não sentia porque não sonhava, e quando se para de sonhar já não se é mais quase nada. Não quando se é feito quase inteiramente de sonhos.
Dizem que é assim que morrem as fadas. Ele não sabia mais ao certo. Não queria pensar nisso também. Apenas estacionou o carro, subiu pelo elevador -- seus olhos ainda não diziam nada no espelho -- abriu a porta de casa, jogou o casaco sobre a pilha de roupas da cadeira e se jogou na cama. Em algum momento ele iria dormir, e talvez sonhar. Isto seria uma bênção, pois de outro modo não mais sonhava. Poucas coisas podem ser mais tristes do que a morte dos sonhos. E assim foi, até o próximo sonho.

Tudo flui, tudo nasce, mas isso não quer dizer que não haja um bocado de morte e estagnação no caminho.

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