21 de mar. de 2009

mais um fragmento de L'th e o Cluracão...

Era uma vez um homem menino que guardou um momento dentro de uma garrafa de cerveja. Valendo-se das artes de sua velha alma, tomou o momento, as duas almas nele despidas, o sol da tarde que virava noite, e guardou tudo dentro de uma garrafa. Guardou-a em seu armário, a adorava em sua mente -- afagava-a em sua imaginação -- como se conseguisse tocar dentro dela as almas alí perdidas, morrendo pouco a pouco. Um dia ele abriu a garrafa e deixou tudo sair e se esvair no ar. Mas o dano já estava feito, e para sempre ele carregou no peito o pouco de morte que bem conhecem aqueles que amaram e partiram...

- Esta é uma história triste, L'th.
- Não. Esta é apenas uma história. Nem sempre me recordo dela como deveria.
- Você...!?
- Vamos tomar uma cerveja, cluracão.
- Humm... tá bom. Você não quer falar sobre isso...
- Já falei.
- Você paga?
- Como sempre...

Marcadores: , , ,

15 de nov. de 2008

Há vida.

É incrível e maravilhoso como pequenas coisas podem nos arrancar do transe triste da depressão. As nuvens avançando no céu, rodeando o sol que dança entre as árvores ao som de tambor das trovoadas que rolam sobre as colinas... só isso, tudo isso... me fez me sentir vivo de novo!

Talvez hoje seja dia de dedicar algum tempo à minha escrita.

Marcadores: , , , , ,

dos que cultivam flores feéricas entre as pedras...

E por falar em cultivar a Imaginação, um novo usuário entrou no meu há-muito-silencioso grupo de discussão sobre Changeling e está trazendo vida nova ao lugar, e à imaginação dos membros mais antigos. Este post é para aplaudir a imaginativa e revitalizante chegada de Werban ao Changeling: the Dreaming - Brasil.

Valeu, Werban!

UPDATE:
Até agora, Werban já abriu tópicos interessantes sobre Changelings Brasileiros, Changelings no Futuro, Changelings no Passado, Lugares Mágicos e os Vampiros Kyasid.

Marcadores: , ,

21 de set. de 2008

Desígnios da Imaginação.

A imaginação não obedece aos desígnios do mundo.
Quiçá, escuta os da alma. Mas no fim, segue apenas
aos próprios desígnios. A imaginação não obedece.
Ela, quando muito, pede passagem e vai.

Imaginários servem tanto à própria imaginação
quanto esta os serve.

Marcadores: ,

11 de abr. de 2008

Imaginação e o mar.

A vida é cheia de imaginação.
O que fazemos dela, e o que ela faz de nós,
é que faz toda a diferença.
Há quem se perca em seus imaginares,
ou nos imaginários alheios, e nunca mais se ache.
E há quem se encontre com sua imaginação
e a traga de forma bela para o mundo.
Estes são os contadores de histórias...

É como o Mar.
O mar do náufrago e o do pescador,
o mar do viajante e do velho que contempla a praia,
o mar de Delian e de Saiwalô...
O mar de todos, todos os mares,
são o mesmo Mar.


Mas nada é criado. Tudo borbulha e é retirado
do cozido maravilhoso que está no Caldeirão de Histórias.
Podemos dele nos fartar, mas devemos sempre cuidar
para nele nunca nos afogarmos.

Marcadores: , ,

7 de nov. de 2007

Imaginação cativa...

"Morava em um jardim, apreciando seu reflexo etéreo nas águas do lago quieto. Era a Imaginação. Era prisioneira e não sabia. Não via os muros altos por detrás das plantas de muitas cores. Não via, pois não mais se movia. Ficava apenas lá, se olhando no espelho das águas que também não iam a lugar nenhum; estagnadas. Muitos seres e coisas passavam por lá. Achava que eram visitas para ela, mas estavam passando apenas por passar. Não eram prisioneiros, nem tinham lugar. Eram nada. Apenas coisas que passam pelos olhos da imaginação. Mas ela não tinha olhos para eles. Ficava só olhando para o lago, e nem via o céu por trás de suas orelhas alongadas. O céu também não ia a lugar nenhum. Era prisioneira de seu próprio paraíso. Não via nada além de si mesma, e nem sequer imaginava que era uma Imaginação prisioneira."

(trecho inicial de um novo escrito no qual estava trabalhando hoje, ainda sem nome...)


Este não é um tempo nem um lugar bom para a Imaginação. Há tantas coisas e tantas pessoas que atacam, tentam destruir ou aprisionar nossa imaginação de todas as formas possíveis. Estou apenas começando a perceber o quanto eu, como muitos de nós, me tornei prisioneiro de tantos destes ardís...

Mas é sempre tempo de tentar libertar sua imaginação e sua alma...


(Este post também é dedicado à maravilhosa mulher que anda me ajudando a encontrar os grilhões de minha imaginação, e a me libertar deles)

Marcadores: , , , ,

14 de mai. de 2007

Alan Moore sobre adaptações cinematográficas de obras literárias e histórias em quadrinhos.

"(...)Quando você lê um livro e dá vontade de tomar chá, por exemplo, você deixa de lado o livro, e vai tomar a sua xícara de chá. Se quiser voltar algumas páginas para lembrar de algo que foi dito páginas atrás, você pode fazer isso. O leitor é que tem que fazer todo o trabalho. Quando lê um livro, o que você faz é decodificar esses arranjos de vinte e seis palavras numa página, por exemplo. Você tem que criar uma imagem para todos os personagens. É capaz de imaginar as vozes deles. Você está conjurando um mundo inteiro, e o está fazendo sozinho. O trabalho é seu. O leitor está contribuindo para ter uma experiência. Não é o caso nos filmes. Você está lá sentado na sua cadeira, e o filme segue, correndo a, sei lá, 24 frames por segundo. A máquina está fazendo todo o trabalho por você. Está tudo pronto. Não precisa imaginar como tal personagem vai se parecer ou como é que ele vai soar. Porque o camarada ali na tela vai sempre se parecer exatamente como o Jack Nicholson, e aquele outro personagem lá vai falar exatamente como um ator qualquer... É negada a chance de ter uma imagem na cabeça. Você tem as possibilidades negadas. Você não está apto a contribuir ao filme, sua imaginação é simplesmente freada e é substituída pela imaginação de quem o fez. Eu tenho esse incômodo com adaptações de cinema. Quando você tem um público que cresce ao redor do cinema, há esse problema dos jovens que absorvem arte apenas se ela vier por uma tela. Isso encoraja à preguiça. Muitas das pessoas que vão ao cinema não precisam se preocupar em ler o livro, porque, obviamente, o livro é muito mais difícil, exige muito mais experiências do que apenas ficar sentado no cinema com uma tigela de pipoca no colo por 90 minutos... É por isso que me incomoda tanto essa coisa das adaptações."
(retirado da entrevista de Alan Moore à revista Trip*)



* o endereço do site da Revista Trip está correto, mas a página principal parecia estar fora do ar no momento do fechamento deste post. De qualquer forma, a entrevista está acessível através do link acima.

Marcadores: , , , , , , ,

2 de abr. de 2007

Acorda pra sonhar...

Peguei emprestado o nome de meu conto inacabado* para dar título a este post pois, cá entre nós, ele não poderia ter outro nome...

Depois de alguns dias frenéticos tentando (e não conseguindo) trabalhar, cansado demais para criar e com trabalho atrasado demais para descansar -- o que acaba virando um impasse meio ridículo -- finalmente consegui ter uma excelente e sonhadora (embora cronológicamente curta) noite de sono. E como sonhei! Foram tantos e tão variados sonhos, que vez por outra despertava no meio da noite e pulava da cama para anotá-los. Visitei tantas terras e reencontrei tantas pessoas imaginárias ou não que, confesso, acordei meio zonzo.

Depois de fazer meus exercícios de decisão de como seria meu dia, me coloquei a ler minhas anotações. Impressionante! Estava tudo lá! O pescador que se perde na tempestade e chega nas ilhas imaginárias, o pai e o filho que guardam o mar contra o peixe demoníaco, o rei-pescador, o rochedo com as três bruxas que apenas parecem boas, a Floresta dos Príncipes onde a discípula do Coyote vai se encontrar com a Senhora das Corujas para descobrir uma receita, o gnomo caçador de Bargheests, a Floresta dos Reis, os pequeninos beijadores de nariz, os cogumelos vermelhos, a Corte Invisível dos Sprites, a mão amputada do forasteiro, o peixe com o anel no estômago, o Velho Caminhante, o Dragão que se apaixonou pela Árvore, O Deus que cantou o Mundo e se esquece de si mesmo para se reencontrar, a caixa misteriosa entregue ao navegante, o navio inteligente e sua capitã, a ilha dos corvos com sua única árvore, a espada no meio dos girassóis, a Princesa Desencantada, o espelho que captura a alma daqueles que se miram envaidecidos, o jovem Cavaleiro e seu Dragão nos céus de Armach, os anões que não sabem o significado da palavra amor, os gigantes que apostam corridas em nuvens e as duas ninfas que brincam no lago...

Tudo...

Em uma noite eu sonhei um mundo inteiro.




---
* no conto "acorda pra sonhar" o protagonista é despertado do transe do dia a dia frenético da vida urbana por um insólito encontro com seu alter-ego onírico dentro de sua casa. Nada mais revelo, pois gosto de surpresas.

Marcadores: , , , , , , , ,

24 de mar. de 2007

Subcriação: poder divino e essência do fantástico, da imaginação e da realização/realidade.

Há algum tempo estou não apenas me preparando para escrever este texto, mas também sentindo uma grande falta dele como substrato para dar um pouco mais de sentido a tantas de minhas reflexões. Vamos, neste post, tentar jogar alguma luz sobre o complexo e absolutamente fascinante conceito de Subcriação elaborado (ou revelado) por J.R.R.Tolkien, que não apenas ilumina a arte da narrativa fantástica como lança também sua luz sobre a dimensão divina do ser e sobre algumas descobertas da física quântica.

Para começar, e tentar colocar em poucas palavras o que toda a literatura Tolkeniana apenas começou a explicar, vamos tentar criar um esboço de definição do que é a Subcriação:

Subcriação é o poder de conceber, com o uso da imaginação e da manipulação quase mágica da linguagem (idéias e conceitos), uma dimensão outra de realidade, com entidades várias, cuja existência é conjurada unicamente pela capacidade de imaginação do ser. Trata-se de conjurar a existência de algo antes inexistente, ou antes inexistente naquela forma, pela pura capacidade de imaginá-lo e experienciá-lo em sua imaginação. Assim concebido e trazido à realidade (mesmo que apenas a uma realidade secundária), este ente passa a existir e deve sua existência unicamente ao poder imaginador (subcriador) de seu imaginante.


Admitindo que minha definição foi um bocado canhestra, e talvez não muito clara, vamos às palavras de um dos mais hábeis subcriadores de nosso mundo a respeito da Subcriação. Nas páginas 28 e 29 de seu "Sobre Histórias de Fadas"(edição brasileira da Conrad, de 2006), Tolkien fala um pouco sobre a Subcriação:
"(...)A mente humana, dotada de poderes de generalização e abstração, não vê apenas grama verde, mas discriminando-a de outras coisas (e contemplando-a como bela), mas vê que ela é verde além de ser grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própra faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou mágica do Belo Reino é mais potente. E isso não é de surpreender: tais encantamentos de fato podem ser vistos apenas como uma outra visão dos adjetivos, uma parte do discurso numa gramática mítica. A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se era capaz de fazer uma coisa, podia fazer a outra, e inevitavelmente fez ambas. Quando podemos abstrair o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos o poder de um encantador em um determinado plano, e o desejo de manejar este poder no mundo externo vem a nossa mente. Isso não significa que usaremos bem esse poder em qualquer plano. Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir horror, podemos fazer reluzir a rara e terrível lua azul, ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros tenham pelagens de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa "fantasia", tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, e o Homem se torna subcriador.

Assim, um poder essencial do Belo Reino é o de tornar as visões da "fantasia" imediatamente efetivas através da vontade. Nem todas são belas, nem mesmo salutares, certamente não as fantasias do Homem decaído. E ele maculou os elfos que têm esse poder (em verdade ou em fábula) com sua própria mácula. Este aspecto da "mitologia" -- a subcriação, não a representação ou a interpretação simbólica das belezas e dos terrores do mundo -- é muito pouco considerado, em minha opinião.(...)"

O que Tolkien está nos apresentando neste e em tantos outros trechos desta de outras de suas obras é que a própria faculdade de imaginar algo, rearranjar-lhe a natureza ou as características, ou mesmo sua relação com o universo que o cerca, é em si só um ato de criação cujas consequências são admiráveis e fantásticas. É a própria faculdade de subcriação, o poder de criar com a imaginação, que Ilúvatar concede aos Ainur no Ainulindalë de O Silmarillion -- onde descreve a criação e a primeira era da Terra Encantada de (que significa, em élfico, "isso é" ou "deixa ser" -- palavras de Ilúvatar que realizaram a subcriação ainuriana), onde se desenrola numa era posterior a sua famigerada saga d'O Senhor dos Anéis.

Ao fundir ou, mais do que isso, identificar o poder subcriador do fabulista e do contador de histórias encantadas com o poder dado por Ilúvatar aos Ainur no Ainulindalë, Tolkien está fazendo uma afirmação discreta e refinada, mas profundamente poderosa -- a de que o poder da subcriação é o que nos torna deuses (como o fez com os Ainur). Da mesma forma Tolkien narra no mesmo Ainulindalë que Ilúvatar teria dado aos elevados Ainur o poder e o privilégio de nomear aquelas coisas que criaram, e que estes nomes passariam a ter um enorme poder, pois tornariam-se parte da criação -- o que não é senão um mito do surgimento da linguagem, a qual é, enquanto elemento organizador de idéias e conceitos, uma ferramenta fundamental à própria faculdade subcriadora. Em um outro trecho de "Sobre Histórias de Fadas" Tolkien também faz uma breve elaboração sobre linguagem e mitologia, quando diz:
"(...)A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como "doença da linguagem", pode ser abandonada sem remorso. A mitologia não é nenhuma doença, porém pode adoecer, como todas as coisas humanas. Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas, em especial as européias modernas, são uma doença da mitologia. Mas ainda assim a linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo.(...)"

Posto isso, Tolkien coloca a linguagem e o mito como elementos inseparavelmente entrelaçados, de modo que geram e devoram um ao outro em seu próprio ciclo e, a meu ver, dá a entender (como se confirma em vários outros trechos) que o mesmo processo que de uma forma gera linguagem e mito, também gera a narrativa fantástica (esta, irmã do próprio mito) e toda a invenção humana -- e tudo isso é fruto e, ao mesmo tempo, matéria prima do divino poder da subcriação.

Dando mais um ousado passo à frente, é possível conectar a idéia de subriação aos mais arrojados conceitos da física quântica, nos quais o Universo só existe pois está sendo não apenas observado, mas moldado pela imaginação e pela percepção. Dando às mãos a Tolkien e Fred Alan Wolf (que maravilhosa companhia!) podemos chegar à conclusão de que não apenas o poder da subcriação é a essência de toda a arte, linguagem e fantasia, mas também o elemento que molda o universo à imagem e semelhança de nossas banais ou ousadas imaginações. Posto isso, somos todos criadores (ou, mais corretamente, subcriadores, senhores do rearranjo livre da realidade) -- deuses -- e a "chama secreta" que deu a existência a brilha no coração de todos nós.

Este é um dos motivos pelos quais eu digo com ORGULHO que eu sou um contador de histórias. Isso é uma reafirmação da nossa própria divindade.


"Eä Eru i estaina ná Ilúvatar Ardassë,
ar ónes minyavë Ainur i ner i híni sanweryo,
ar ner yo së nó ilúvë né ontaina.
Ar ten quentes, antala ten lammar lindalëo,
ar lirnentë, ar së né alassëa.

Nan andavë lirnentë ilquen erya
ecar pitya nótessë [sina lúmessë] ar hosta lastainë,
nan ilquen hanyanë minyavë sanwi Ilúvataro
yallon tulles, ar handessë nossento
palyanentë nan úlintavë.
Nan oi lúmessë ya lastanentë, entë tuller antumna handenna,

ar vanessë lindalento palyane
ar tulles marta sa Ilúvatar tultanë Ainur eryenna
ar quente ten taura lírë pantala ten analt'
ar analcarinquë or ya nó westanes
ar i alcar yesseryo ar i rille mettaryo elyaner Ainur,
yanen cawnentë ar carnentë úlamma..."

(fragmento do Ainulindalë em Quenya)


Namárië.

Marcadores: , , , , , , , , , , ,