Fábula de Alma...
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O Caderno do Cluracão
Este blogue é a caderneta digital de anotações do imaginante e contador de histórias Daniel Duende Carvalho. Aqui são rabiscadas idéias, fragmentos, registros, anotações, referências, pensamentos, divagações, desabafos, poesias, delírios e algum nonsense. Se sua curiosidade o trouxe até aqui, seja bem vindo.
Abraços do Verde.
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Admitindo que minha definição foi um bocado canhestra, e talvez não muito clara, vamos às palavras de um dos mais hábeis subcriadores de nosso mundo a respeito da Subcriação. Nas páginas 28 e 29 de seu "Sobre Histórias de Fadas"(edição brasileira da Conrad, de 2006), Tolkien fala um pouco sobre a Subcriação:"(...)A mente humana, dotada de poderes de generalização e abstração, não vê apenas grama verde, mas discriminando-a de outras coisas (e contemplando-a como bela), mas vê que ela é verde além de ser grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própra faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou mágica do Belo Reino é mais potente. E isso não é de surpreender: tais encantamentos de fato podem ser vistos apenas como uma outra visão dos adjetivos, uma parte do discurso numa gramática mítica. A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se era capaz de fazer uma coisa, podia fazer a outra, e inevitavelmente fez ambas. Quando podemos abstrair o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos o poder de um encantador em um determinado plano, e o desejo de manejar este poder no mundo externo vem a nossa mente. Isso não significa que usaremos bem esse poder em qualquer plano. Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir horror, podemos fazer reluzir a rara e terrível lua azul, ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros tenham pelagens de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa "fantasia", tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, e o Homem se torna subcriador.
Assim, um poder essencial do Belo Reino é o de tornar as visões da "fantasia" imediatamente efetivas através da vontade. Nem todas são belas, nem mesmo salutares, certamente não as fantasias do Homem decaído. E ele maculou os elfos que têm esse poder (em verdade ou em fábula) com sua própria mácula. Este aspecto da "mitologia" -- a subcriação, não a representação ou a interpretação simbólica das belezas e dos terrores do mundo -- é muito pouco considerado, em minha opinião.(...)"
O que Tolkien está nos apresentando neste e em tantos outros trechos desta de outras de suas obras é que a própria faculdade de imaginar algo, rearranjar-lhe a natureza ou as características, ou mesmo sua relação com o universo que o cerca, é em si só um ato de criação cujas consequências são admiráveis e fantásticas. É a própria faculdade de subcriação, o poder de criar com a imaginação, que Ilúvatar concede aos Ainur no Ainulindalë de O Silmarillion -- onde descreve a criação e a primeira era da Terra Encantada de Eä (que significa, em élfico, "isso é" ou "deixa ser" -- palavras de Ilúvatar que realizaram a subcriação ainuriana), onde se desenrola numa era posterior a sua famigerada saga d'O Senhor dos Anéis.
Ao fundir ou, mais do que isso, identificar o poder subcriador do fabulista e do contador de histórias encantadas com o poder dado por Ilúvatar aos Ainur no Ainulindalë, Tolkien está fazendo uma afirmação discreta e refinada, mas profundamente poderosa -- a de que o poder da subcriação é o que nos torna deuses (como o fez com os Ainur). Da mesma forma Tolkien narra no mesmo Ainulindalë que Ilúvatar teria dado aos elevados Ainur o poder e o privilégio de nomear aquelas coisas que criaram, e que estes nomes passariam a ter um enorme poder, pois tornariam-se parte da criação -- o que não é senão um mito do surgimento da linguagem, a qual é, enquanto elemento organizador de idéias e conceitos, uma ferramenta fundamental à própria faculdade subcriadora. Em um outro trecho de "Sobre Histórias de Fadas" Tolkien também faz uma breve elaboração sobre linguagem e mitologia, quando diz:"(...)A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como "doença da linguagem", pode ser abandonada sem remorso. A mitologia não é nenhuma doença, porém pode adoecer, como todas as coisas humanas. Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas, em especial as européias modernas, são uma doença da mitologia. Mas ainda assim a linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo.(...)"
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Toda moral é um código, uma estruturação, de valores. Valores são afirmações feitas a respeito de idéias, atos, objetos, pessoas e quaisquer elementos que se possa perceber. Quando se diz "o gato é bonito", se está fazendo uma afirmação de valor. Quando se diz "eu estou achando este texto um saco", esta é também uma afirmação de valor. Do mesmo modo, dizer que tal coisa é certa ou errada, ou que tal idéia ou coisa é boa ou ruim, são afirmações de valor (assim como dizer que alguma coisa existe ou mesmo que não-existe). Sobre estas afirmações de valor, de certos e errados e "melhores que" e "piores que", se constrói uma moral. E não é que haja tantas "morais" assim, pois uma grande quantidade de afirmações de valor são tão entranhadas em nossas culturas que nem sequer sabemos que as levamos em nossas cabeças. Logo, podemos discutir se o aborto é "bom" ou "ruim" e, dependendo de nossos valores, este será "moral" ou "imoral" (contrário à moral). Por outro lado, se eu questionar a validade da afirmação
Vamos tentar aprofundar um pouco mais esta questão (ou, se estiver cansado ou já estiver convencido de que não é possível escrever uma narrativa não-moral, pode pular para o último parágrafo). Vamos nos esforçar mais para buscar ao menos uma única afirmação não moral. Algo como "a pedra está no chão". Vejam! Uma afirmação sem nenhum conteúdo moral, certo? Não é!? Err... acho que não foi desta vez que conseguimos também. Pode-se dizer que não há a princípio nenhuma questão que "pareça" moral envolvida nesta afirmação. Mas vamos olhar um pouco mais para a pedra e ver se não há aí nenhum valor envolvido. Antes de mais nada, o que é uma pedra? Sem precisar entrar em definições muito complexas, uma pedra é um objeto basicamente não-vivo (ou assim convencionamos acreditar) que e feito de... bem... de algum tipo de rocha. Mas no fundo isso não é uma pedra. Isso é apenas um nome (valor) e uma definição que o conceitua (mais valores) atribuídos àquele objeto. A mesma coisa vale para chão e até para a idéia de "estar" (sim, lá vamos nós para mais Metafísica Qualitativa Pirsiguiana!). Mas o que tem a ver isso com a moral? É aí que está o ponto! Lembram-se de que a moral é uma estruturação de valores? Se o nome é um valor, e eu estou usando naquela afirmação ao menos dois nomes (pedra e chão), além do conceito de estar, então afirmar que a pedra está no chão é uma reiteração (ainda que "au-passant") da "validade" destes nomes e deste conceito enquanto formas de se expressar o fenômeno sobre o qual estou afirmando. Tá muito complexo? Agora que chegamos até aqui, dá para simplificar. Ao dizer "a pedra está no chão" eu estou dizendo que existe uma pedra, e que ela pode ser chamada assim, e que existe um chão, e que ele pode ser chamado assim, e que uma pedra pode estar no chão, a partir do momento que estou afirmando que ela "está no chão".
Weeew... que maluquice, duende! Pode ser maluquice, mas são afirmações perfeitamente razoáveis. Eu poderia questionar (e esta seria uma daquelas coisas que parecem inquestionáveis, pois estão incutidas em nossa percepção de mundo, mas que na verdade tanto podem ser questionáveis quanto vem sendo questionadas pela física quântica), por exemplo, que exista tal coisa como uma pedra. É! Eu posso! E agora você não vai ter só que afirmar que a pedra está no chão. Vai ter que me convencer de que há tal coisa como uma pedra para que ela possa estar ali no chão. A mesma coisa vale para o chão. Você afirmou que há um chão (e isso é um valor: "chão existe", uma vez que algo pode estar "no chão"). Agora vai ter que arcar com as consequências. Prove que existem pedras, chão, e, por fim, que uma pedra PODE simplesmente ESTAR no chão. Mas não precisamos discutir nada disso se você quiser apenas afirmar que "a pedra está no chão", assim como afirmar que "John pegou a pedra e a jogou em Michael" ou que "Mary teve seu filho pois considerava um absurdo realizar um aborto". Mas você há de convir agora que estas três afirmações são profundamente carregadas de conteúdo moral (e que eu posso ser um imoral por isso, mas eu posso questioná-las enquanto afirmações de valor que são). E agora podemos, então, concluir que é IMPOSSÍVEL se escrever uma narrativa sem conteúdo moral?
Postas todas estas coisas, temos então que ficar atentos à moral de cada uma de nossas afirmações (e isso não apenas quando estamos escrevendo histórias ou fábulas). Cada afirmação carrega em seu seio uma enorme quantidade de consequências, e se as mesmas passam completamente desapercebidas no cotidiano, o mesmo não se dá quando se está construindo uma narrativa. Cada pequena afirmação utilizada na construção da história diz muito não apenas sobre o mundo que está sendo sub-criado, mas também sobre o olhar que você ora lança sobre ele (e partilha com o leitor). Quando se está escrevendo uma história, seus olhos são os olhos do leitor e seus ouvidos são igualmente partilhados mas, sobretudo, uma parte "a priorística" do seu juízo de valores também acaba sendo emprestada. O leitor pode exercer seu senso crítico a respeito daquilo que consegue enxergar, mas não a respeito daquilo que você já julgou e valorou antes dele. Desta forma é dado ao contador de histórias não apenas moldar um mundo e povoá-lo de personagens e histórias, mas também enfocar todo este ecossistema dinâmico com a luz de seu olhar narrador de forma a dar a ele tal ou qual nuance desejar. Cria-se vilões e heróis (e estes dois entes são elementos feitos de moral da cabeça aos pés, mesmo que não tenham cabeças ou pés), direitos e regras, premiações e punições naturais, e tudo isso pode acontecer por debaixo do tapete vermelho que você estende ao leitor, ou mesmo por debaixo do seu próprio nariz. Quando digo que ao escrever dizemos muito sobre nós mesmos, não estou falando apenas das nossas escolhas temáticas e de histórias, ou das dimensões morais mais aparentes. Estou dizendo que, ao emprestar seus olhos e ouvidos e tudo mais ao leitor, você está emprestando uma parte das janelas da sua alma e, inevitavelmente, das lentes que usa para enxergar o mundo sub-criado ou revelado a você. Estas são coisas que se deve ter em mente ao escrever. Toda história tem uma moral ou, mais do que isso, toda história é construída inteiramente de valores, moral e (com um pouco de imaginação, arte e fantasia por parte do contador) de um bocado de magia. É necessário se ter muita responsabilidade e atenção quando se utiliza a magia da criação...
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Por falar em histórias encantadas, foi uma verdadeira pedrada na cabeça ler ontem a parte dos escritos de Tolkien (em seu "Sobre Histórias de Fadas") a respeito de sua definição e delimitação deste tipo de história. Não apenas ele consegue mostrar porque este tipo de encanto se restringe à literatura (estando perdido para o teatro, mesmo para o teatro shakespeareano), como também mostra muito claramente que em uma história encantada ou sobre o reino encantado não são os seres humanos que são o objeto central, e se o são, com suas percepções e emoções, não se trata então de uma história encantada.
Além disso Tolkien fala que a literatura de Fantasia (palavra a qual delimita magistralmente como o fluxo da Imaginação Subcriadora para a Arte) é um tipo de literatura à parte, que não se deve valer dos artifícios artísticos literários e deve se mergulhar na expressão do encanto. Isto é, que o escritor e seu ego saiam da frente, com todas as suas firulas e jogadas de palavras, e deixem que o puro encanto subcriado ou natural do Mundo Encantado tomem o centro do palco e da visão do leitor. Fabulistas devem ser então, os mais humildes dos escritores. Todo aquele encanto não os pertence, e embora sejam por eles trazidos à existência através de seu elevadíssimo poder de subcriação.Marcadores: fabulistas, faërie, histórias encantadas, subcriação, tolkien