23 de out. de 2009

reencontro. (2)

Estas parecem ser semanas cheias de reencontros com meus velhos escritos, proporcionados por comentadores conhecidos ou desconhecidos. Depois de reencontrar os "Caminhos", e meus escritos míticos sobre a tribo metarecicleira, foi a vez de reencontrar uma anotação blogada sobre a Cobra Preta que Mama, uma lenda do nordeste brasileiro. (aliás, encontrei aqui também uma referência à dita cobra)

A anotação é uma das milhares de notas que me seriam preciosas se eu as reencontrasse, feitas no meu velho blogue Alriada Express. O que é mais curioso é que neste exato momento eu estava debruçado sobre um "mito" que me veio à cabeça agora mesmo enquanto comia um hamburguer ali no Steve*. Logo que estiver colocado em palavras escritas, publico aqui o mito de Ingatú-sem-corpo.

*ainda tenho que um dia largar mão da inércia para escrever sobre a hamburgueria do Steve.

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2 de fev. de 2009

Palavras Mágicas

Felipe Fonseca, o incansável cavaleiro do joelho izquierdo da tribo metarecicleira, me citou lá no TecnoMagia...

Valeu mesmo, FF!

Duende na lista metarec:

A magia está no fluxo de todas as coisas (e pessoas).
A mágica está nas relações. Se couber mágica (e poesia) em nossas relações, lá estaremos em conexão com a magia que flui em tudo.

Vale lembrar que em vários grupos, o ensinamento técnico e de procedimentos era indistinguível dos ensinamentos mágicos/místicos/numinosos. Preparar a terra para o plantio era acariciar uma deusa, fazê-la agrado para que ela lhe desse a colheita. Observar os festivais e respeitar os deuses de todas as coisas era também uma forma de manter o bom fluxo do grupo em todos os níveis. Arte e técnica, magia e tecnologia, só foram distinguidas por conta de nossa ignorância de sua total unidade, e de nossa unidade com todas as coisas.

é tudo um.

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28 de jan. de 2009

redescobrindo o caminho para mudar a história (pessoal)

Se tudo se trata de narrativas, deve haver uma forma de reinventá-las...
É claro que há...
O problema é descobrir como fazê-lo, principalmente nestes momentos em que a luz dentro da alma se apaga e tudo que queremos é não existir...

Vai ficar tudo bem... eu só não sei como, nem quando...

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15 de nov. de 2008

Há vida.

É incrível e maravilhoso como pequenas coisas podem nos arrancar do transe triste da depressão. As nuvens avançando no céu, rodeando o sol que dança entre as árvores ao som de tambor das trovoadas que rolam sobre as colinas... só isso, tudo isso... me fez me sentir vivo de novo!

Talvez hoje seja dia de dedicar algum tempo à minha escrita.

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30 de ago. de 2008

Griô.

Hoje acordei com uma disposição diferente. Não era preguiça, nem falta de vontade de trabalhar. Lavei meu carro, ajeitei as coisas que precisava ajeitar em casa, até tentei trabalhar -- mas algo me dizia que não havia trabalho a fazer, e que outra coisa me chamava. Lembrei que havia marcado, de meio coração, o primeiro encontro de imaginários para amanhã. Não havia ainda sentado para juntar as centenas de anotações que havia feito para a Crônica de Changeling que pretendo re-iniciar no encontro, e decidí então quer seria isso que deveria fazer.

Depois de fazer as compras que a casa demandava (e esquecer de comprar comida para minha pobre companheira felina, que agora no início da noite desistiu de miar para ir caçar camundongos), me sentei na frente do computador e comecei a baixar os livros de que precisava, reler velhas anotações, fazer algumas muito poucas novas anotações, ler livros de regras, estudar sobre o que precisava estudar... enfim, assumir novamente o velho manto de contador de histórias.

E tudo fluiu naturalmente, como nos velhos tempos. Sem grandes arroubos, sem grandes bolas de fogo ou outros ocidentalismos associados à magia. Simplesmente, aconteceu. Redescobrí minha senda de contador de histórias, e o manto e o cajado de griô moderno novamente me recaíram leves e naturais nos ombros. Os personagens que antes me sussuravam no ouvido, há várias semanas, fizeram silêncio. Eles sabem que agora vou cuidar deles, e que não é mais necessário seu chamado constante. E é isso que vou fazer. Estou novamente contador de histórias, pois isso é o que eu sou.

E então descobrí que em algum lugar nas redondezas, começou a chover em meio à seca brasiliense. Quem disse que a mágica não está em todo lugar?

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6 de mai. de 2008

Relembrando a mágica esquecida...

O FFF me fez relembrar da mágica da Subcriação. Palavra e sabedoria que os dias banais me haviam feito esquecer...

Já te agradeci o bastante, FFF?

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1 de abr. de 2008

Como no Começo, sempre há um.

Há uma longa história a ser contada. Mas hoje eu já sei como contá-la.

Vou contá-la da mesma forma que eles a contam para mim...
Em fragmentos, pequenas jóias de caleidoscópio, vislumbres, recordações e devaneios.

A longa história estará organizada com os seguintes tags:

Queda do Oeste, para reunir todos os fragmentos em um só fluxo de lembranças, lendas e revelações.
Arranárra, Lothienárra e Delianárra definindo as três linhas narrativas que contam a longa história que talvez comece antes do Leste e do Oeste.


E A História talvez comece assim...

"Houve um começo, mas cada vez que ele foi narrado sua verdade se diluiu na alma daquele que o narrou. Eu poderia contar como começou, como alguns já fizeram, mas estaria falando de mim mesmo, mais do que daquilo que você quer saber. Houve um começo, mas vou me limitar a contar aquilo que me lembro e aquilo que vivi. É tudo que posso e que quero fazer. E a minha história começa como um nascimento, com dor e um pouco de desorientação, em um quarto escuro..."
~ extraído do Delianárra.

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11 de mar. de 2008

lembrança.

A folha voando lá fora
me lembrou de tudo que existe.
Se há aquilo que é triste,
há muito mais no que existe.

magia existe.
alegre, ou triste.

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2 de mar. de 2008

Prisioneiro da Colina.

Eu falei que queria magia, mas por vezes não percebo
quantas formas ela pode tomar.

Eu falei que queria tempo para escrever, mas nunca me permiti parar no silêncio da colina para fazê-lo. E então, a colina se mancomunou com o céu e me aprisionou por uma noite, fechando a estrada com lama da chuva.

O que vou fazer com esta noite, depende de mim. Espero que eu me encontre e escreva.
De qualquer forma, não dá para fechar os olhos para a mágica coincidência dos fatos.

Coisa dos Deuses...

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Zaratan...

Sonhei com Zaratan e achei ter acordado encharcado. Mas a água era apenas água de sonho, embora chovesse lá fora. No sonho eu estava ocupado, muito ocupado, e corria de um lado para o outro para atender às minhas demandas. Nisso, eu não via o céu passando e a água subindo. Zaratan estava desperta, e eu sobre suas costas, estava ocupado demais para perceber que em breve iríamos estar em outro lugar... provavelmente debaixo do Mar.

Eu tenho que voltar novamente minha atenção àquilo que sempre me importou.
Voltar à magia e à poesia não é mais uma escolha. É uma necessidade fundamental à minha sobrevivência. Ainda assim... não estou vendo caminhos.

Something must be done... quickly.


p.s. a imagem do post vem daqui.

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20 de fev. de 2008

Memória do Fogo - Nascimentos.

Andando por entre as galerias da Rua Augusta em SP com a Patinha, finalmente achei -- assim, meio por acaso, -- a primeira parte da trilogia Memória do Fogo de Eduardo Galeano.

É a leitura de seus primeiros fragmentos (vou reproduzir alguns deles depois por aqui) que me deu novamente uma fagulha de encanto. Espero encontrar tempo, e juízo, pra mergulhar novamente no eu que estava deixando de lado.

De nada adianta que uma parte de mim voe se a outra se perde nas sombras.
Que as memórias de Galeano (e as tantas histórias e seres imaginários que me cercam) me ajudem a me reencontrar poeta em meio ao concreto dessa vida moderna.

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22 de fev. de 2007

... as he were of faierie

"...His croket kembd and thereon set
A Nouche with a chapelet,
Or elles one of grene leves
Which late com out of the greves,
Al for he sholde seme freissh;

And thus he loketh on the fleissh,
Riht as an hauk which hath a sihte
Upon the foul ther he schal lihte,
And as he were of faierie
He scheweth him tofore here yhe..."

Trecho de uma poesia de John Gower (se não me engano, Confessio Amantis) que, segundo Tolkien em seu On Fairy-Stories (in Tree and Leaf, 1947), seria o primeiro registro escrito da palavra Fairy, ou Faërie. Mas estas duas palavras não querem dizer a mesma coisa, no fim das contas. Faërie é um lugar, traduzido pelo próprio Tolkien (que, lembremos, foi um dos maiores estudiosos das línguas anglo-saxônicas do século XX) como Fair Kingdom, ou o "Belo Reino" (A própria palavra Fair -- belo -- teria em sua origem o Faierie médio-inglês), ou Enchanted Realm, ou "Reino Encantado". Por sua vez Fairy poderia ser traduzido, a princípio, como a palavra para designar os habitantes, ou um tipo de habitantes, deste reino. Parece natural que a primeira referência ao lugar tenha surgido na língua inglesa antes da referência a seus habitantes, mas muitos tradutores confundem o penúltimo verso da poesia, traduzindo-o como "...as he were a fairy" ("como se ele fosse uma fada") mas não foi isso que Gower escreveu. O original "...as he were of faierie" se traduz literalmente como "...as he were of faërie" ("como se ele fosse de faërie/da terra encantada"), até porque a frase ficaria sem nexo ao ser traduzida como "...as he were of fairy" ("como se ele fosse de fada"). Logo, em seu primeiro registro escrito, a palavra não se refere a um ser ou pessoa, mas a um lugar -- O Lugar.

Pequenas (ou enormes) confusões como estas fizeram com que a palavra Faërie fosse quase completamente eclipsada na língua inglesa pela sua derivada Fairy, sendo inclusive confundida muitas vezes com um sinônimo ou grafia alternativa desta. Desta terrível forma, os seres encantados foram simbolicamente desprovidos de sua origem (e portanto de sua essência, e então de seu poder e magia) e confinados em um sem-lugar obscuro do mundo (ou pior, apenas do imaginário) do Homem. Até mesmo na wikipedia este engano é cometido, o que não chega a ser uma surpresa, infelizmente.

Não são as fadas ou seres encantados, mas é a Terra Encantada, que define essencialmente os Contos de Fadas (fairytales). Ou, melhor ainda, deveríamos sempre chamá-los de "Faërietales" (Histórias da Mundo Encantado), mas que não fazemos pois simplesmente não sabemos, muitas vezes, que esta diferença (e que esta terra) existe. Ainda segundo Tolkien (e eu concordo totalmente com ele), o que define as Histórias de Fadas ou Histórias do Reino Encantado é a Magia. Magia esta que é inerente primeiro à Terra Encantada, onde faz parte da natureza, e por conseguinte de seus habitantes, por serem parte desta natureza. É desta forma que, ao se perder a palavra (e portanto até mesmo a idéia essencial) da Terra Encantada, privamos os filhos desta terra de sua magia, ao transformá-los em uma parte misteriosa e alienígena de nosso próprio mundo (o qual também privamos dia a dia de toda a magia).

Na língua portuguesa, a questão é ainda mais séria. Não há, a princípio, uma palavra em nossa língua para designar a Terra Encantada. Eu disse a princípio, pois a palavra existe, mas vocês não acreditariam se eu vos dissesse qual é (e poucos sequer se lembram que ela tem este significado, embora nós a falemos com muita frequência). De qualquer forma, até mesmo o Fairy do idioma inglês recebe uma ambígua e insuficiente tradução como Fada -- uma palavra que mistura em sua construção uma série de referências que não a equivalem exatamente ao Fairy inglês e muito menos ao ylfe ou ao daóine-sidhe do velho mundo. Se os Fairy desterrados da língua inglesa tem ao menos o direito a ter dois sexos, as fadas são condenadas a ter apenas o sexo feminino e são ainda mais gravemente limitadas em seu escopo de significados e formas. Já a palavra para designar as "fadas do sexo masculino" é ainda mais estranha e inadequada (sim... estou criticando aquele que é meu nome, mas apenas como tradução correta para o Fairy masculino). Vejo isso com um certo assombro, pois as terras ibéricas eram ricas em... errr... fadas e duendes no seu imaginário, simbolismo e mitologia.

A língua e o pensar, o imaginar, andam juntos. Temos, portanto, que tentar recuperar não apenas as palavras certas para falar do Reino Encantando e do povo sutil e mágico que vive e vem de lá, como também reencontrar seus significados. Os filhos de Faërie, a Terra Encantada, agradecem.

Quando abrimos mão das palavras encantadas,
perdemos também os poderes da Subcriação e da Imaginação.
Pensem nisso.




p.s. para aqueles que ainda não sabem, algum dia conto qual é, segundo meus estudos, a única palavra sobrevivente na língua portuguesa moderna para designar o Reino Encantado. (curiosos? procurem em Nansen, In Northern Mists, ii, 223-30. dica de rodapé do próprio Tolkien).

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14 de fev. de 2007

Vendo fadas e duendes pela janela do carro... (ou, indo d'Aquí para Lá)

Acho que foi em algum dos acordes de Grendel, do Marillion, que eu ouvia no headphone enquanto falava sobre quem eu um dia fui, que eu entrei -- ou caí através -- do buraco do coelho. De repente, eu estava lá de novo, naquele carro. Via a mata passando pela janela. A Mata Atlântica, ou o que eu acreditava ser a Mata Atlântica, no caminho de Rio das Ostras para Búzios (ou o que eu acreditava ser Búzios). De repente eles estavam lá também, now and then. Aqueles homens amarronzados de olhos curiosos me olhando das árvores, aquelas pequenas fadas bonitas, aquela vida feérica toda se mostrando para o garoto de 12 anos que se acreditava mais parte daquilo do que de qualquer outra coisa. Mas não era a lembrança, ou a cena, que me impressionava. Eu me lembrava claramente desta cena o tempo todo. Era o sentimento. Eu consegui reencontrar o sentimento de ser eu naquele momento, e isso foi mais do que assombroso... foi numinoso!

Mais do que realmente acreditar, eu realmente confiava na magia naqueles tempos. Confiava mais na existência de um mundo além do visível, de uma lei natural superior às limitadas visões da natureza por parte do homem moderno, do que confiava em qualquer outra coisa, ou mesmo em mim. Eu era uma criança então. Mas era uma criança mágica. E eu sabia o que aquelas fadas e duendes e pequeninos e dançarinos-da-madeira estavam dizendo para mim. Eu sabia exatamente o que eles queriam dizer quando olhavam para mim com aqueles muitos olhos, de muitas cores e formatos, tão curiosos e assombrados quanto eu. Eles queriam dizer "que diabos você tá fazendo aí, colega?". Eles também queriam dizer "Tá. Já que você está aí, boa sorte, viu?".

Não era como se eu fosse parte daquilo. Eu era parte daquilo -- daquele outro mundo -- assim como ele era parte de mim. E ele fazia sentido. Era um mundo de presságios, de sinais, de sentidos e significados velados e de ligações misteriosas entre todas as coisas. Era um mundo onde tudo fazia sentido, embora quase tudo fosse envolto em mistério. Era um mundo que era mais estranho e ao mesmo tempo mais familiar para mim do que este mundo dos homens e das máquinas aqui. Era o meu mundo, e eu estava em casa nele. E daquele mundo vinham as certezas, e a força, para continuar vivendo.

Mas os anos se passaram depois daqueles dias, depois daquele e de muitos outros encontros com meus irmão "do outro lado". Eu tive que aprender a viver com as pessoas, ou assim acreditei que deveria fazer, e aquilo de mim que pertencia ao Mundo Encantado começou a se perder. "É a abdicação da infância", diria você. É tudo muito simples para aqueles que foram crianças. Mas eu não era uma simplesmente uma criança. Eu era um duende aprisionado em um mundo estranho, e que estava se perdendo de sua própria natureza. Não sintam pena de mim. Ninguém sabe como eu me sentí, nem o que parecia estar se perdendo naqueles anos. Nem mesmo eu posso dizer que sei, só sabia que sintia a falta daquilo que nem sabia mais ao certo o que era, até hoje.

Levei muito tempo para conseguir entender quem eu era, e quem eu sou. Nunca me sentia realmente em casa em lugar algum. Nunca me sentia realmente compreendido por ninguém. A sensação de eterno estranhamento, eterna alienação, me perseguia. Mesmo depois de aprender as artes da dissimulação e da adaptação, artes estas bem humanas -- bem diferentes das ilusões e do glamour das fadas -- eu continuava me sentindo inadequado. Quando descobri, ou redescobri, a escrita e o contar de histórias, conheci uma nova dimensão de alívio e dor. Alívio, pois descobri na arte uma nobre ressonância da magia da Terra Encantada. Eu podia novamente criar mundos, e eles podiam ser do jeito que eu sei que os mundos são, e não do jeito que eles -- os gentes -- achavam que ele deveria ser. Pude novamente explorar meus mundos em busca de minhas histórias. Mas encontrei também uma nova dimensão de dor e angústia, quando descobrí que mesmo que eu contasse as mais significativas histórias, nunca conseguiria passar para o papel aquilo que eu enxergava. Deparei-me não com os limites fantásticos da arte, mas com meus limites humanos enquanto escritor.

A Terra Encantada estava lá dentro de mim o tempo todo, embora com o tempo eu viesse perdendo mais e mais a minha capacidade de entendê-la, enxergá-la, adentrá-la. Entendi que não interessa quantas histórias eu contasse, nunca conseguiria chegar sequer à sombra do encanto daquelas Terras. Nunca alcançaria a beleza ou a magia da minha Alriada. Isso me fez desistir da escrita e da poesia por muito tempo. Novamente, me perdia de mim. Comecei novamente a perder as esperanças.

As alegrias deste mundo não são poucas nem pequenas. As diversões, as maravilhas, os sutis encantos das gentes são infindos. O horror e o absurdo das gentes também é um reflexo à altura dos horrores e perigos da Terra Encantada. Mas neste mundo de beleza e horror, eu sou um estrangeiro. Encanto-me, caminho por ele, tento construir nele uma casa, encontrar um espaço, mas sou eternamente um estrangeiro. Tornei-me também um estrangeiro de mim, e isso foi o mais triste. Perdido no reino do meio, na estrada cinza entre a Terra Encantada e a Terra da Gente, eu virei um alguém de lugar nenhum -- algo próximo a um não alguém. É claro que eu sabia fingir muito bem. Quase era possível que acreditassem, mesmo olhando bem de perto, que eu era mesmo o que parecia ser -- um Gente -- e que tudo estava bem. Até eu acreditava nisso, e propositalmente ou não, esquecia que tudo aquilo era uma mentira contada para esconder um vazio que eu não sabia como remediar. Mas era uma mentira. Eu não sou um Gente. Eu sou um filho do Outro Lado, e cedo ou tarde isso sempre vinha à tona quando me deparava com a minha inabilidade essencial para lidar com certas coisas do aqui.

Mas o tempo passou, e vez por outra os lampejos da outra terra, não mais vistos mas ainda assim sentidos, continuavam a me visitar. Vez por outra era tomado de inspiração e magia, e voltava a escrever algo. Mas o Este Mundo, ou minha inabilidade de viver nele, acabavam me afastando desta luz sublime, ou me massacrando a ponto de perder novamente os sentidos e a sensibilidade. Alternei períodos de mergulho negatório em quaisquer prazeres que este mundo pudesse me trazer e períodos de contrita auto-punição por estar perdido de mim mesmo. Em ambos, me afastava mais e mais da essência do Outro Mundo. A Terra Encantada pode ser intoxicante, mas suas intoxicações são de uma ordem muito mais sutil -- embora não menos poderosa -- do que as intoxicações do Aqui. Na maior parte das vezes as intoxicações daqui só nos afastam das terras de Lá. Ainda, a contrição e a disciplina são para as fadas e seres encantados como o sal pode ser para os sapos (ou, ao menos, para os sapos encantados). Elas nos dissolvem. Apesar, então, de quaisquer lampejos e momentos luminosos, continuava a me perder mais e mais. Por vezes me desesperava, acreditando que todos os passos que eu pudesse dar seriam, fatalmente, na direção contrária ao Caminho da Terra Encantada, e rumo à morte que é pior do que a morte do corpo -- a morte do espírito.

Vistas de fora, estas dores parecem-se um bocado com as dores dos Gentes. Mas, acreditem-me, não o são, como não são cogumelos de verdade aqueles que ladeiam aquelas árvores. Tudo de natureza feérica é dotado de tal sutileza que, aos olhos dos Gentes, passam por outras coisas que, acreditem-me, não são realmente. É particularmente grave quando, com a vista anuviada como a dos Gentes, os filhos da Terra Encantada começam a enxergar cogumelos onde há pequeninos, e dores humanas onde há a destruidora angústia de uma fada exilada. E foi o que fiz. Durante tantos anos, depois que fechei os olhos para tudo que era, eu realmente acreditei que todas estas dores eram apenas dores como as de todas as outras pessoas. Não me admira que nunca as tenha conseguido solucionar realmente. Não me admira que eu nunca tenha conseguido realmente entender quem eu sou, ou por quê sou como sou, quando fechava os olhos para a chave desta resposta. Pior do que ser um duende se perdendo da Terra Encantada era ser um Duende que achava que era Gente.

Mas já basta de falar destas dores. O desabafo já se extendeu mais do que devia, e tomou um rumo que não era aquele que eu planejava quando comecei a escrever estas linhas. Vamos parar de lamentar, e falar de redenção. De um tempo para cá (aproximadamente duas horas, para ser humanamente exato) comecei a entender, ou melhor, "realizar" (pois entender é coisa que se faz com a mente, e a mente é coisa de Gente), que tanto a Terra Encantada quanto a essência Mágica de seus filhos está sempre lá, mesmo que você não a veja, mesmo que você não a encontre. Basta você permitir que ela seja, e ela aparecerá. E foi assim que comecei a realizar também que quando não tento ser gente nem fada, nem isso nem aquilo, e quando me liberto de qualquer tentativa de ser, acabo sendo aquilo que sou. Parece complicado? É porque assim como não há palavras para descrever com propriedade as belezas e horrores da Terra Encantada, também não há palavras para explicar algumas das mais simples verdades do universo (que é um só, para lá e para cá, e ao mesmo tempo infinitos uns).

E assim, realizando uma verdade simples e inexprimível, o duende pode enfim terminar o texto que começou sem saber onde o iria levar, e dormir em paz.

Ao menos agora vocês sabem um pouco da minha história. Mas esta é apenas uma das formas de contá-la -- a minha -- e vocês não precisam acreditar nela. No fim das contas, sou apenas uma bela ilusão para vocês. Assim é a vida paradoxal das fadas.



E este é um mundo realmente muito estranho...

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