3 de mar de 2009

Quando morrem os sonhos.

Ligou o carro, que rateou um pouco antes de pegar. Engatou a ré e saiu da vaga. Cruzou rapidamente com seus próprios olhos no espelho retrovisor. Eles não diziam nada. Quando engatou a primeira e acelerou, o carro saiu com um pulo. Assustou-se com seu próprio gesto. Viu que era engraçado, mas não sorriu. Não havia achado mesmo graça. Saiu do estacionamento, dirigindo quase que automaticamente. Ao parar no primeiro sinal vermelho, acendeu depressa um cigarro para não pensar. Tragou sem sentir, o sinal ficou verde, ele engatou a primeira e saiu, mais suavemente desta vez. Continou dirigindo quase automaticamente para casa. Desviava os pensamentos de si mesmo, e de toda a sua vida. Era apenas um homem voltando para casa sozinho, fumando seu cigarro, sem pensar em nada. Esta anonimidade dentro do universo de si mesmo o confortava. Não que ele precisasse de conforto. Não sabia o que estava sentindo, e isso era bem próximo naquele momento de sentir nada. Ou então ele fingia. Devia estar fingindo bem, ou desviando a própria atenção, pois nisso também acreditava. Quando o cigarro acabou, jogou o filtro quebrado pela janela e continuou dirigindo. Olhava distraído as janelas dos prédios pelos quais passava. Quase se distraía. Apenas o ato de dirigir o mantinha conectado à realidade. Seus pensamentos se desviaram para outro mundo, para outras vidas, outros lugares... outros ele que não eram. Tudo para não pensar. Tudo para não sentir. Não sentia porque não sonhava, e quando se para de sonhar já não se é mais quase nada. Não quando se é feito quase inteiramente de sonhos.
Dizem que é assim que morrem as fadas. Ele não sabia mais ao certo. Não queria pensar nisso também. Apenas estacionou o carro, subiu pelo elevador -- seus olhos ainda não diziam nada no espelho -- abriu a porta de casa, jogou o casaco sobre a pilha de roupas da cadeira e se jogou na cama. Em algum momento ele iria dormir, e talvez sonhar. Isto seria uma bênção, pois de outro modo não mais sonhava. Poucas coisas podem ser mais tristes do que a morte dos sonhos. E assim foi, até o próximo sonho.

Tudo flui, tudo nasce, mas isso não quer dizer que não haja um bocado de morte e estagnação no caminho.

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1 Comments:

Blogger Dora Nascimento said...

É bem triste a morte dos sonhos...
os caminhos seguem quase enfadonhos,
então...
Os sonhos - meus - não morrem, eu os armazeno em crateras secretas.
Se eu soubesse escrever fábulas,
alguns eu retiraria do limbo.
Sei não.

Gostei muito.

(Só não gostei da parte que o cara joga o filtro quebrado do cigarro fumado pela janela.
Ele não precisa contribuir com a sujeira das ruas que entopem galerias. Mas isso é uma questão de educação doméstica, "Não jogue lixo no chão".)

3/09/2009 01:58:00 PM  

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