Encontro imaginário com Rubem Fonseca.
(Fragmento escrito depois de ler "O Inimigo", de Rubem Fonseca, em seu livro "Os Prisioneiros")
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O Caderno do Cluracão
Este blogue é a caderneta digital de anotações do imaginante e contador de histórias Daniel Duende Carvalho. Aqui são rabiscadas idéias, fragmentos, registros, anotações, referências, pensamentos, divagações, desabafos, poesias, delírios e algum nonsense. Se sua curiosidade o trouxe até aqui, seja bem vindo.
Abraços do Verde.
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"Você fez de mim um sátiro (e um glutão), por isso gostaria de permanecer agarrado às suas costas, como Bufo, e, como ele, poderia ter a minha perna carbonizada sem perder esta obsessão."
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Agora que já passei a dor de cabeça em frente, está na hora de tentar escolher cinco -- Os cinco -- entre os livros que tanto me marcaram. Vamos fazer assim: vou responder sem pensar muito, tudo bem? Os livros que mais me marcaram e ainda hoje fazem sentido para mim (em nenhuma ordem especial, exceto a da memória) são:Marcadores: bernard cornwell, fábulas, literatura, livros, meme, metafísica da qualidade, robert pirsig, rubem fonseca, tolkien, tom robbins
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O terceiro sentimento é o encanto cantado no post anterior, de andar por uma cidade que é pano de fundo e personagem de uma boa parte daquilo que ando lendo hoje em dia. Isso não é sem propósito; desde que me mudei para o Rio me propus a mergulhar e conhecer a literatura carioca que fale sobre a cidade. A sensação de ler sobre Copacabana, sobre o Jardim Botânico, sobre a rua Voluntários da Pátria em Botafogo (onde trabalha o médico da morta de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca), sobre a Urca onde um homem morre afogado enquanto Clarice Lispector experimenta seu vestido... sobre tantos lugares e histórias cariocas... é simplesmente fantástica. É como estar finalmente inserido e contemplado integralmente em um universo ao mesmo tempo real e secundário, imaginário e sólido. É a magia penetrando o dia a dia.
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Onde Estivestes de Noite dispensa (mais) comentários. A prosa de Clarice é, no mais das vezes, impressionantemente boa. O mesmo se pode dizer de Rubem Fonseca, com seu texto direto, cativante e profundamente humano e simples. Já de Cintia Moscovitch, tenho que me segurar para não falar impropérios. Enquanto isso, Manuel Puig foi apenas uma decepção (tendo em vista que uma grande amiga havia me recomendado muito bem este seu livro).
A prosa de Cintia Moscovitch é ininteligível quando tenta ser original e simplesmente ruim quando tenta ser inteligível. Seu experimentalismo não convence, e passa a impressão de que ela é apenas mais uma escritora que acha ser muito mais do que é. Talvez seu texto ainda possa melhorar com o tempo (assim como o meu ainda precisa melhorar MUITO antes que eu ache que está minimamente bom), mas o que vi em "O Reino das Cebolas" é algo que eu não classificaria nem sequer como regular. Resumindo, achei Cintia Moscovitch uma escritora sofrivelmente ruim. Não consegui sequer terminar de ler seu livro, pois lutava a cada página contra o impulso de jogá-lo pela janela. Me pergunto como diabos este livro quase ganhou o Prêmio Jabuti.
Manuel Puig, por sua vez, merece palavras bem mais brandas e doces, embora não muito condescendentes. Seu "Pubis Angelical" não chega a ser um livro ruim, pelo que percebi. Não é ruim, mas não chega também a ser bom. Existe uma aridez, um algo de profundamente desinteressante, em seus personagens. Os diálogos entre Ana e Beatriz e Ana e seu diário nos primeiros capítulos do livro são um bocado sem pé nem cabeça, e as reflexões de Ana na cama do hospital (psiquiátrico) são até convincentes, mas não me chamaram a atenção em nada. Marcadores: cintia moscovitch, clarice lispector, crítica literária, literatura, manual puig, rubem fonseca
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"Famílias...!" -- disse com ódio. -- "Ora, as famílias são o ninho da mais silente loucura, aquela que é indizível e encontra no berço dos cuidados familiares o seu lugar". Mal conseguia respirar, bufava, enquanto cuspia seu discurso regado a perdigotos. "Famílias destroem o homem, que faz muito bem em fugir da sua o quanto antes!". A criança que olhava para ele do berço não compreendia nada, mas não chorava. Pelo contrário, divertia-se perplexa, como se soubesse que aquilo era uma brisa morna de sanidade entre a silenciosa loucura dos seus. Mas não. Era apenas um bebê, e sabia do que os bebês sabem. Não sabia do que não precisava saber, mas seria tão louco quanto os seus quando chegasse o momento. Famílias são mesmo berços de loucura, pois todos precisam fingir que são sãos -- mesmo quando não o são.
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