27 de mar de 2007

As cidades e as histórias.

Levando alguns passos em frente (por um caminho mais produtivo) o post anterior, estava pensando sobre a importância da existência de literatura ambientada em uma cidade para a construção do imaginário de (e sobre) aquela cidade. No caldeirão desta reflexão, junto 3 sentimentos semelhantes em natureza e distintos no tempo e no espaço.

O primeiro é o sentimento de isolamento e "saudade do desconhecido" que experimentava nos tempos em que só lia literatura estrangeira. Sentia falta de encontrar a minha cultura, a minha nacionalidade, nas histórias que me moviam.

O segundo sentimento era um sentimento de falta. A falta de literatura sobre Brasília, que narrasse histórias brasilienses, sob os céus da Cidade Seca, falando das coisas daquele lugar -- capturando seu espírito, evidenciando-o. A este sentimento respondi me propondo quase naturalmente a só escrever a respeito daquela cidade, no meu período de contista que foi de 2003 a 2006.

O terceiro sentimento é o encanto cantado no post anterior, de andar por uma cidade que é pano de fundo e personagem de uma boa parte daquilo que ando lendo hoje em dia. Isso não é sem propósito; desde que me mudei para o Rio me propus a mergulhar e conhecer a literatura carioca que fale sobre a cidade. A sensação de ler sobre Copacabana, sobre o Jardim Botânico, sobre a rua Voluntários da Pátria em Botafogo (onde trabalha o médico da morta de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca), sobre a Urca onde um homem morre afogado enquanto Clarice Lispector experimenta seu vestido... sobre tantos lugares e histórias cariocas... é simplesmente fantástica. É como estar finalmente inserido e contemplado integralmente em um universo ao mesmo tempo real e secundário, imaginário e sólido. É a magia penetrando o dia a dia.

Isso me leva de volta ao questionamento do segundo sentimento: É necessário que as pessoas escrevam sobre suas cidades, sobre suas realidades, sobre suas vidas e as vidas das quais são testemunhas. Há de se falar de jeitos, trejeitos, ruas, espaços, apertos, histórias e ilusões de cada cidade -- e de sua gente. Uma cidade sobre a qual há rica literatura é mais real do que a sua realidade física, é super-real, é mais forte e se entranha na carne do leitor-morador.

É por estas e por outras que me sinto em dívida com minha cidade natal quadradinha. Eu tenho que escrever sobre aquela cidade! Tenho que viver mais dela, e escrever mais, muito mais, sobre ela! O Rio já está em boas mãos. É bom de morar, é bom de ler. Mas quando não estiver escrevendo sobre a Terra Encantada, quero escrever sobre a minha terra.

Brasília ainda carece de quem conte suas histórias. Eu ainda careço de contar as histórias da minha Brasília. Ouço o chamado. Um dia eu chego lá...



Já que declarei em meu post anterior meu amor pelo Rio, agora é hora de declarar também o meu amor por Brasília, sua gente, sua terra que vira poeira no ar e seu vento seco que embaraça os cabelos e o coração. Eu também amo Brasília, e ainda vou escrever muito sobre ela. Ela merece!


(mas para quem também ficou com água na boca para ler sobre Brasília, humildemente prometo publicar mais dois de meus contos brasilienses no Overmundo logo depois que publicar a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão. Para quem não quer esperar, sempre há Na Saída e A Moça Acenando na Janela.)

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4 Comments:

Blogger Adriana said...

Eu tbm acho que Brasília merece ser contada. Contada por moradores, por gente que goste, por alguém daqui. Antes de qualquer coisa, Brasília merece justiça. Merece alguém que mostre que ela não é só a Esplanada, o Congresso e o Palácio do Planalto. Ela não é só isso, ela é muito mais. Precisamos de alguém que também mostre quem é o brasiliense, aquele ser que trabalha muito e é descrente na política, que nunca vota na situação, mas sempre leva a culpa e é conhecido como corrupto.

Bjocas da Drixz!

3/30/2007 08:11:00 AM  
Blogger Daniel Duende said...

Eu acho que toda cidade merece ser contada, transformada em pano e fundo e personagem, por seus moradores-contadores-de-histórias. Nada impede que os forasteiros também escrevam sobre elas, mas são os contos dos conhecedores de cada pequeno encanto de uma cidade que realmente podem capturá-la -- da mesma forma que é necessário um mergulho fundo na natureza humana para se escrever de forma convincente e real sobre elas.

Penso que Brasília merece inclusive que se vá além das quadras, além de seus moradores... Merece que se vá até a sua alma, seu imaginário, seus fluxos...

Ainda tenho muito a aprender sobre escrever sobre pessoas e cidades mas, como disse, sinto-me em dívida com minha cidade e minha gente. Algum dia eu chego lá. :)

E você, Drixz... também escreve?

Bjos do Verde.

3/30/2007 01:21:00 PM  
Blogger Milene em Movimento said...

Mas o Rio é isso... dá vontade de escrever, dá vontade de escrever, dá vontade de escrever...

Engraçado, mas tenho tenho textos sobre meus dias em Brasília, a cidade me trouxe de volta esse hábito importante.

Agora me encontro com Caio Fernando Abreu e digo que foi um belo encontro, meu escritor carioca do momento. E que momento esse...

4/01/2007 08:35:00 PM  
Blogger Daniel Duende said...

É verdade... o Rio traz mesmo uma inspiração enorme. Ele toca, ele invade, ele dança a sua volta...

Lembro-me que mesmo nos tempos em que o odiava, eu tinha vontade de chorar quando chegava aqui. Era uma vontade de chorar de admiração mesmo...

Engraçado, que fiz o caminho contrário. Foi aqui no Rio que aprendi a necessidade que tenho de escrever sobre Brasília :D

Vou dar uma olhada em Caio Fernando Abreu :D

Bjos do Verde.

4/01/2007 09:51:00 PM  

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