8 de jun de 2007

Balanço (um conto-fragmento)


Balanço.


O vento uivava lá fora. Tão forte, tão enormemente forte e vasto! As árvores balançavam até quase se quebrarem. Em algum lugar, uma porta bateu seca. Lá fora. Tudo lá fora. Alí dentro só havia silêncio. As luzes estavam todas apagadas, e nada se movia. Nada se podia ver além da brasa do cigarro. A mão que o segurava não se movia. Parecia não haver vida lá dentro. Perdido em pensamentos, Saulo esquecia-se até de bater as cinzas do cigarro pousado sobre o peito nu. Uma brasa caiu sobre seu peito. Saulo não se moveu.

Em algum lugar, um telefone tocou. Não era ali. Não era pra ele. Saulo apenas permaneceu em silêncio. Quando se moveu, foi para apagar o cigarro que não fumou, em um cinzeiro já abarrotado de cinzas. Ato contínuo, acendeu outro cigarro e deu uma baforada. Gemeu baixo, mas seu gemido foi engolido pelo vento. Moveu a cabeça lentamente para fitar a passagem em arco que dava para o corredor. Deu outra tragada profunda, que fez com que a brasa iluminasse seu rosto. Chorava em completo silêncio e sem lágrimas. Lágrimas e palavras eram dispensáveis.

Tinha seus motivos para chorar. Duvidava que fizessem sentido para mais alguém. Sentia-se muito só, mesmo que isso também não fizesse sentido para mais ninguém. Fitou as sombras do corredor, como se enxergasse coisas que não estavam lá. Deu mais uma tragada profunda no cigarro. Suspirou. Quando o vento bateu mais forte, balançando a janela ruidosamente, assustou-se um pouco. Como que despertado de um transe, alcançou o copo e bebeu. Fez uma careta, e uma gota de vodka escorreu pelo canto de sua boca. Não a impediu, enquanto ela rolava até o seu queixo e alí ficava, projetada.

Sozinho, ele entendia melhor a própria solidão. Em silêncio, não precisava dizer nada. Mesmo triste e só, preferia estar alí. Ninguém poderia tocá-lo naquele lugar, onde era intocável. A não ser que...

Quando o telefone tocou, sabia que alguma coisa iria acontecer. Estremeceu ao segundo toque. Atendeu. Lá fora, o vento ainda soprava, balançando a janela.

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Balanço é mais um de meus fragmentos de gaveta. Como foi escrito e reescrito em um arquivo .txt, não é possível saber quando surgiu. Olhei para ele muitas vezes, reescrevendo uma parte ou outra, adicionando e retirando frases. Nunca soube ao certo o que queria dizer. Hoje, mesmo sem entendê-lo por completo, me pareceu pronto -- mesmo sendo apenas um fragmento. Resolví publicá-lo aqui, então, para poder dormir em paz.

Não me perguntem o que quer dizer. É apenas uma história. Eu apenas a escrevi. Não é minha.
Apenas Saulo entende seus motivos para chorar, mas ele prefere ficar só. Não o perturbem.

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