26 de jul de 2007

A imortalidade é um estado de espírito -- conto.

Juntei algumas imagens e algumas idéias, escrevi sem compromisso com nada, e saiu mais um conto. Não me importa seu sentido ou sua moral. Ele é apenas o que é. É a história de um cara que descobre algumas coisas sobre a vida e a morte. Nada demais. Apenas as verdades dele. Seja como for, é uma história.

Espero que gostem.
O conto se chama...

A imortalidade é um estado de espírito.

"Elizabeth sempre dissera que aquilo iria acabar por matá-lo. Talvez ela tivesse um prazer mórbido -- daquele que se escondia bem por trás de sua doçura -- se soubesse agora que tinha razão. Sentado em um banco próximo a seu carro, logo perto do hospital, Jonas segurava o papel meio amassado dos exames nas mãos descaídas sobre o colo. Elizabeth agora tinha razão. Todos que haviam dito que ele ainda iria morrer daquilo tinham razão. Como se não fosse óbvio se ter razão quando se vaticina a mortalidade de alguém, aventando a letalidade de riscos evidentes. É claro que o cigarro mata, seu bando de imbecis!

Estava mesmo morrendo, então. Os exames detectaram o que outros exames confirmaram e o médico interpretara com cara de falsa piedade: Jonas estava mesmo com câncer de pulmão. É claro que a notícia caiu sobre ele como uma pedra. Rir na cara da morte não tem muita graça. Não logo de cara. Então, ele simplesmente tentou não chorar na frente do médico. Não conseguiu se segurar depois que saiu do hospital. Tinha pena de si mesmo, achava-se muito jovem para morrer. Mas isso também era absurdo. Não havia motivo para ter pena de si mesmo. Sua vida havia sido... havia sido?... sua vida era muito boa, e ele havia feito o que bem quisera dela. Todo mundo acha-se jovem demais ou velho demais para morrer. Os poucos que se salvam não pensam na morte, ou em raros casos aprenderam a não se importar com ela. Jonas não sabia ao certo o que pensar agora. Mas ao menos havia parado de chorar.

Ficou pensando na vida enquanto a brisa balançava as árvores e o dia esquentava cada vez mais. As pessoas passavam, a maioria delas com caras tristes, para um lado e para o outro. É dificil ver rostos alegres perto de um hospital. Talvez os hospitais façam com que as pessoas sintam-se ainda piores a respeito de si mesmas, ou de estar doente. Talvez os hospitais façam com que as pessoas sintam-se ainda piores de morrer, já que tem tanta gente lá dentro tentando viver. Médicos e hospitais faziam a idéia de arriscar a própria vida, ou de morrer, soar quase obcena. Jonas resolveu ir embora dali. Já que sabia que estava morrendo, não precisava mais de nada daquilo.

Demorou um pouco para ter firmeza nos braços para dirigir -- ainda estava abalado. Mas por fim conseguiu dar marcha-ré no carro e ir para um bar. Para onde mais iria? Uma boa parte da rede de sentidos e de práticas cotidianas de Jonas estava irremediavelmente avariada pela descoberta daquilo que o matava. Não conseguiria voltar para o trabalho. Não conseguiu também ligar para ninguém para dar a notícia, embora muitos de seus amigos estivessem esperando ansiosamente pelo resultado negativo dos testes. É claro que não havia pressa agora, que não havia mais boas notícias a dar. Não haveria festejo. Eram apenas as coisas como eram. Jonas sentou-se no bar e pediu uma cerveja. O olhar prestativo do garçom parecia ter um leve traço de pena, e isso o incomodou. Convenceu-se de que isso era absurdo. É claro que o garçom não sabia de nada. Quem ainda estava com pena de si mesmo era Jonas. Isso o irritou.

Tirou o maço de cigarros do bolso e levou um deles à boca. Paralizou o próprio movimento no momento de acendê-lo. Não era isso, afinal, que o estava matando? Colocou o cigarro de volta na mesa, branco e aparentemente inócuo, até mesmo frágil, e ficou paralizado olhando para ele até a chegada da cerveja. Encheu o copo e bebeu em grandes goladas. Estava gostosa, gelada e amigável naquele dia quente. Quando voltou a encher o copo e tomar mais algumas grandes goladas, já não se sentia mais tão doente. Na verdade, naquele momento não sentia nenhum sinal de doença em si mesmo. Estava sentado em um bar, tomando sua cerveja, sem nenhuma preocupação na cabeça além da idéia de que iria morrer -- o que tirava dele qualquer preocupação com o futuro. Naquele momento, não ter um futuro era libertador. Deixava-o livre para beber sua cerveja e se preocupar apenas eventualmente com o fato de que estava prestes a morrer.

Mas estava mesmo prestes a morrer? Não sabia. Algumas pessoas vivem durante anos com um câncer devorando-as lentamente, por vezes imperceptivelmente. Existia a quimioterapia e os outros tratamentos. Ele não precisava estar exatamente morrendo agora. E mesmo que não fizesse nada disso, não fazia idéia de quanto tempo aquele câncer levaria para matá-lo. Sua morte iminente começava a entrar em cheque em sua cabeça. Não sabia se sentia-se mais confortável assim. Pensamentos sobre o futuro, sobre o que faria da sua vida se tivesse seis meses, um ano, três anos de vida, começaram a perpassar sua cabeça. Aquilo parecia ser pior do que morrer. Escolher o que fazer com o tempo que o restava parecia ainda mais angustiante. Quase sentia vontade de que não o restasse tempo nenhum, para que pudesse viver só um dia depois do outro esperando pelo dia em que não se deitaria para dormir, ou que não levantaria ao acordar. Estava tudo ficando muito confuso. Encheu mais um copo de cerveja e o virou. Depois encheu o copo de novo, e tornou a virá-lo garganta abaixo. A cerveja gelou sua garganta e o afastou de seus pensamentos. Pediu mais uma garrafa.

Começou a pensar em todas as pessoas que havia conhecido, aquelas que ainda estavam em sua vida e aquelas que haviam desaparecido. Pensou que nunca mais veria algumas delas. Isso o deu uma pontada de tristeza, até que percebeu que o pensamento também era absurdo. Poderia viver 60 anos mais e não voltar a encontrar muitas pessoas que haviam desaparecido de sua vida. E elas nunca fizeram tanta falta assim até hoje. Por quê fariam agora? Este parecia ser apenas mais um dos pensamentos absurdos e estúpidos que, de alguma forma, se insinuam na sua cabeça quando você descobre que está prestes a morrer. Jonas riu de si mesmo. Voltou a olhar para o cigarro. Ainda não teve coragem de acendê-lo, mas ao menos parecia mais amistoso ali onde estava. Estava cansado de todos estes pensamentos estúpidos. Sentia-se ao mesmo tempo pesado e leve agora. Sentia-se ao mesmo tempo revitalizado e moribundo. Não conseguiu encontrar outro motivo para acreditar-se moribundo além dos papéis que assim diziam, guardados em seu bolso. Então, sentiu-se cheio de vida. Quando a cerveja chegou, levantou um brinde para a pilastra e bebeu também de uma vez.

Será que morrer era tão ruim assim? Não sabia. Ninguém sabia disso ao certo, mas agora ele sabia que iria descobrir em breve. Sentiu medo da dor, mas lembrou-se de que haviam analgésicos legais e proibidos que poderiam afastar qualquer dor. Fez anotações mentais sobre quem poderia arranjar um pouco de heroína, ou algumas doses boas de morfina, para si. O pensamento de que a dor, toda a dor, era evitável deu à idéia de morrer contornos mais macios. Tirou o celular do bolso. Sentia vontade de conversar com alguém. Não sobre sua morte, que ainda não era fato, ou do câncer que era pouco mais do que uma abstração por trás de sua ligeira dificuldade de respirar. Queria conversar sobre a vida, sobre as mesmas coisas de sempre. Naquele momento percebeu que a única diferença que aquela coisa estranha que eventualmente o devoraria por dentro fazia em sua vida se projetava sobre o futuro. E o futuro era, sempre foi, desconhecido. A gente só acredita que o conhece, mas não sabe de nada. Se um câncer vai surgir ou não, se os freios do carro vão falhar ou se o ônibus vai capotar com você dentro. Você nunca sabe se vai morrer no dia seguinte, ou se vai ser feliz ou triste. Você apenas acredita. E então, alguém que estudou 10 anos para saber fazer isso te diz que tem algo te devorando por dentro, e então você está morrendo. Mas não estamos todos? A vida cobra seu preço, pensou Jonas. E algumas das melhores coisas são aquelas que mais cortejam a chegada da morte. Nunca pensara em abrir mão de qualquer prazer em sua vida. Por que isso iria ser diferente agora? E que diferença fazia se agora a morte parecia mais próxima? Ainda estava vivo.

Respirou fundo, e certificou-se de que ainda conseguia respirar sem desconforto. Encheu o copo. Bebeu. Chamou o garçom e pediu mais uma cerveja enquanto a garrafa sobre a mesa ainda estava na metade. Queria fartura. Começou a procurar pelos nomes dos amigos e amigas na agenda do celular. Queria ligar para todos. Queria dar uma festa. Quem se importa em morrer, se você pode estar vivo até o fim? Não queria ficar triste nem sentir pena de si mesmo. Queria abraçar a vida, abraçar as pessoas, transar, gozar, beber, rir, fazer tudo que tornava boa a vida. Não havia mais com o que se preocupar. A morte o libertava de todas as preocupações, e lhe devolvia a vida. Jonas resolveu aceitar o presente.

Acendeu o cigarro e decidiu viver até o dia de sua morte. Parecia-lhe muito estúpido fazer qualquer outra coisa. E assim, Jonas continuou vivo -- imortal até que se provasse o contrário, como todos nós. Todo mundo morre. Só varia o quando e o como, e o quê você fez antes disso. Jonas sabia muito bem o que faria agora. Iria viver como se não houvesse amanhã. Finalmente, isso era verdade. Jonas brindou à morte e bebeu a vida, e foi feliz com isso. E assim foi."




Antes que alguém pergunte. A história não é biográfica (e muito menos autobiográfica), mas eu entendo o Jonas...

Quem há de dizer o que é certo ou errado, ou uma boa forma de se viver ou morrer? Cada um sabe da própria vida e da própria morte. Estamos aqui para ser felizes, e tirar bom proveito desta vida. Melhor ainda se pudermos fazer algo bacana -- amar, deixar alguma obra bela, fazer alguma diferença na vida das pessoas -- neste meio tempo.

Hoje eu escrevi um conto. Amanhã, se estiver vivo, farei outras coisas ainda melhores -- beberei, abraçarei e beijarei pessoas amadas, verei a cidade, farei coisas que gosto...

Assim segue a vida, para mim e para o Jonas, até o fim.

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