20 de mar de 2007

Os dias sem norte

"Não me lembro que em que dia, mês ou ano. Lembro que estava muito frio, talvez julho, talvez 2001.
Foi de manhã, o telefone tocou, meu marido atendeu e eu imediatamente começei a chorar, ninguém teve que me dar a noticia, eu sabia que meu pai tinha morrido.
Também não me lembro de como fui parar no chuveiro, como a minha mala ficou pronta e nem como em instantes estava no aeroporto indo para São Paulo. Não sei como uma viagem de uma hora e meia durou só 5 minutos.
Quando desembarquei não sabia se tinha que ir para algum lugar ou se alguém ia me buscar. Por alguns momentos fiquei parada em pé com a mala na mão. Foi aí que vi a Elza Soares, me sentei do lado dela, baixei minha cabeça e esperei.
"
(extraído de uma blogada da Mariana no blog Idéias Estranhas, de PH e as Peixoto)
Estava decidido a só pensar em coisas alegres hoje, mas uma concessão se faz justa e necessária a esta blogada da Mariana Peixoto. Conheci a ela, suas irmãs, sua família, inclusive o pai referido no texto (a quem eu achava um cara muito bacana) quando era ainda um moleque de uns 6 ou 7 anos. Só isso, ler sobre a partida de alguém conhecido por quem tínhamos apreço ou sobre as emoções que se amontoam nestes momentos, já me tocaria o bastante. Mas o fato é que este texto me faz também lembrar do meu próprio dia sem norte, quando meu pai também tomou seu rumo para outra parte de sua viagem neste ou em outro universo.

Lembro-me que já sentia que o dia estava estranho e frio desde seu início. Não havia dormido em casa, esticando uma soneca no sofá de um outro amigo depois de sua festa de aniversário. Também não havia ido trabalhar. Jogara Tagmar por toda a tarde, numa sessão de RPG que não me divertiu em nada. Sim, sentia que o dia estava estranho, mas achava que era só a depressão eventual causada pela ressaca do dia anterior. Quando, depois de outras errandas pela cidade de Brasília, cheguei à casa de um velho amigo artesão de fantasias, sentia-me particularmente estranho. A pequena festa que lá se desenrolava, com risadas femininas estridentes e partidas de algum jogo de tabuleiro obscuro do qual não me lembro, iluminadas por abajours antigos, não me interessava em nada. Ainda, eu não ia para casa. Continuava lá, encostado no sofá, fingindo que ria.

Quando o telefone tocou, não sei se senti algo estranho ou se já era a estranheza que sentia o tempo todo que se fazia mais sentida -- não me lembro mais. Quando meu irmão me disse ao telefone que meu pai havia passado mal e estava hospitalizado, tentei me animar dizendo que ele já havia sobrevivido a um infarto antes, mas por fim perguntei se ele estava morto. Meu irmão disse que não, mas naquele momento sentí que ele estava. Me levantei e fui até a sala vazia da casa. Meus ouvidos zumbiam um pouco, e eu tentava relembrar de toda a preparação que havia imposto a mim mesmo nos últimos anos -- uma preparação para lidar com aquele momento fatal e inevitável. Sentia-me sereno, mas ao mesmo tempo anestesiado. Falei com as paredes e com a escuridão da sala como se falasse com meu pai, racionalizando que se ele não vivia mais naquele corpo que me concebeu e me abraçou, vivia agora então em todo lugar. Disse-lhe que podia ir, que seu ofício de criar seus filhos estava bem concluído, e que seguiríamos em frente. Não sabia se falava a verdade ou se mentia para tranquilizar o espírito de meu pai que partia. Sabia que descobriria com o tempo. Descobrí.

Quando cheguei em casa, pouco tempo depois, sem me lembrar também ao certo como tinha chegado até lá, mesmo assim não conseguí chorar. Havia roupas espalhadas pelo corredor da casa que sempre fora tão arrumada quando meu pai era vivo. Roupas espalhadas de pessoas que haviam se vestido com pressa frente à emergência. Aquele era mais um sinal de que aquela não era mais a casa de meu pai. Meu pai nunca permitira roupas jogadas no chão do corredor de sua casa. Mesmo assim, eu não conseguia chorar.

Sentia que havia muito a se fazer, mas não sabia o quê. Previdente, liguei para tirar da cama um velho e confiável amigo a quem recrutei para me ajudar naquele momento. Sabia que poderia precisar. Não confio, nem nunca confiei, em qualquer semelhança de infalibilidade de minha parte, e naquele momento alguém tinha que não falhar. Ele já estava a caminho quando desligou o telefone. Sentei-me então em frente a meu computador e mandei um email para uma ex-namorada, dizendo a ela que estava muito equivocada se algum dia achara que eu era fraco ou covarde. Sentia naquele momento uma pontada de rancor por esta injustiça, proferida por ela dias antes, e agora que sabia que era e tinha que ser forte, não podia continuar deixando aquela acusação sem resposta. Descarreguei tudo o que podia naquele email que, assim como o dia, também não tinha norte. Ela nunca me respondeu, mas pelo que me consta ainda acha que sou um cara legal.

Quando ouvi a campainha, pouco depois de terminar meu rancoroso email, fiz uma prece silenciosa aos velhos Deuses para que fosse meu amigo -- antes de minha família. Não sei se os Deuses olham com mais carinho para os órfãos, mas naquele momento me atenderam. Sem alegria ou cumprimentos, meus amigo se juntou a mim na espera nervosa e silenciosa pelo que vinha pela frente. E então, eles vieram. A chave girava vacilante na porta, e eu já podia ouvir os gritos e o choro desconsolado de todos. Por um segundo pensei para comigo mesmo um silencioso "ai meu saco, agora é que vai ser a parte chata", e isso me fez me sentir desprendido da situação. E então minha família irrompeu em um luto que parecia ser paradoxalmente estranho ao meu pela sala de casa. Enquanto se amontoavam pelos sofás e cadeiras, encontrei meu irmão em meio à balbúrdia sofrida que nos cercava. Ele tinha uma lágrima nos olhos. Nunca havia visto meu irmão chorar antes. Nos abraçamos apertados e fizemos uma jura abafada de lealdade eterna um ao outro. Acho que foi alí que derramei a minha primeira lágrima da noite, mas sabia que em algum lugar meu pai sorria orgulhoso. Seus filhos estavam realmente moldados com aquilo que ele mais valorizava: o amor e a lealdade fraternal. É claro que isso foi também uma sentimentalidade, mas a quem acaba de perder o pai é dado todo o direito para qualquer ato sentimental.

Foi um dia sem norte, aquele dia de morte. Mas foi também um dia de renascimento. Naquele dia eu soube do que eu era feito. Eu era, e sou, feito de Louzada e Costa Carvalho, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e tudo que todos eles tentaram manter em mais alta conta durante todas as suas vidas até então. Perdera meu pai, mas ganhara em troca um pouco mais de mim mesmo. Era igual a todos, e estava de pé quando todos achavam que o jovem e frágil Daniel desabaria. Alí, eu fiquei de pé.

Valeu por tudo, meu pai.
Aquilo que você não me deu em vida, você me propiciou quando se foi. Naquele dia eu aprendi que era capaz de lidar -- de um jeito ou de outro -- com qualquer coisa, contanto que não me deixasse assustar demais. Foi naquele dia de 1998, e nos dias que vieram depois, que eu comecei a virar homem, mesmo sendo até hoje e eternamente um menino que vive com um pé no Mundo Encantado.

Graças aos Deuses.

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2 Comments:

Anonymous Ian. said...

teu post me inspirou.

perdi meu pai muito cedo, e também recebi a notícia por telefone...

ele morreu assassinado. foi trabalhar num sábado e só acharam o corpo dele na segunda. mas no domingo eu já imaginava que ele não viria mais.

na segunda acordei me perguntando (será que no supermercado eles me contratarão como pacoteiro? talvez consiga algo no mcdonalds... eu tinha 12 anos). minutos depois de acordar, ligaram, avisando que haviam encontrado o corpo dele, todo mutilado.

foi dificil ver minha mãe chegar em casa, para buscar roupas 'pra vestir teu pai...' não dá pra esquecer a imagem do caixão, todo coberto de flores, sem as mãos que normalmente os mortos exibem, juntas, sobre o peito.

abraços, meu velho.h

3/22/2007 12:34:00 PM  
Blogger Daniel Duende said...

Meu caríssimo cara, sua história é muito triste, mas acho que também a entendo. O sentimento que temos em horas como estas é difícil de colocar em palavras -- não só a dor, mas também o sentimento "ter de ser forte" que chega a um passo de ser revitalizante, mas para alí... e fica como algo metálico que nos mantém de pé.

Sinto-me honrado, contudo, que meu post tenha te inspirado.

Vou lá no teu blogue agora.
Abraços do Verde.

3/22/2007 01:01:00 PM  

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