14 de mar de 2007

encantamento do rei coxo

Ergo a taça e brindo ao espelho.
Tomo do veneno meu que é bálsamo,
meu suco virente, medicina potente
tão mortal e tão espesso, tão raro.

Os corcéis que cortam a mata
procuram por mim naquela terra.
A outra, a que não se pode ter,
aquela terra que me ama...

Brindo à noite quente e ausente
com minha taça de bile e vinho raro.
Sou o senhor de todas as minhas
bençãos, de todas as maldições...

Nu sob o manto, elevo-me
Sei bem de minha linhagem
e de toda a extensão de mim.
Meu desdém é espada afiada.

O rei dos tolos só se curva a si mesmo.
Mas, ainda que claudicante,
um rei patético é ainda um rei.
Admirem vosso rei coxo e cheio de amor escuro.

Admirem a ridícula supremacia
da doce imperfeição humana.
O rei é uno com a terra, é filho do céu.
O rei é o reflexo inexorável de seu reino.

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