6 de mai de 2008

Acorda pra Sonhar - Versão Final, Capítulo I

Primeiro Capítulo, onde Renato acorda ainda confuso, tropeça em uma cadeira e descobre algumas coisas.

Renato abriu os olhos e se levantou de um salto. Não ouvira o despertador tocar, mas esta parecia uma daquelas manhãs onde se perde a hora. O quarto estava tão claro, de uma luminosidade tão límpida, que não era possível que não fossem já umas dez horas da manhã. Sem olhar para os lados, abriu o armário perguntando a si mesmo se as portas do mesmo não eram antes de outra cor, e foi então quase derrubado pela revoada de borboletas que se espremeu para escapar pelas portas que abrira. Cambaleou para trás com passos desencontrados sacudindo os braços freneticamente, sem conseguir evitar o toque macio das asas das borboletas multicores. Caiu de costas sobre a cama, e o susto pareceu absorvido pela sensação de que esta parecia muito mais macia do que de costume. Foi então que viu as penas que foram lançadas ao ar por sua queda na cama, e começou a se questionar seriamente sobre o que estaria acontecendo. "É claro que devo estar sonhando", pensou. "Mas que sonho estranho é esse"!


Levantou-se devagar, lutando contra o abraço macio demais da cama que o convidara repentinamente a voltar ao sono. Olhou à volta. Seu quarto ainda parecia seu, mas era outro quarto. O armário branco era agora de uma pátina verde que parecia nova, e era enfeitado por linhas em alto relevo que lembravam algum motivo vegetal. Os pôsteres da parede haviam sumido, mas em seu lugar um quadro de grossa moldura cor de bronze onde se via uma paisagem campestre que parecia se mover de tão vívida ocupava a parede, que era agora de um branco que parecia refletir a luz que atravessava as cortinas. Mas ele também não lembrava de ter cortinas em seu quarto, e muito menos se lembrava de ser sua cama tão grande e macia, encimada por um dossel de tecido verde grosso aparentando também maciez. Havia ainda uma cadeira, mas não era mais a mesma cadeira. O estofamento avelulado verde era totalmente diferente de sua contraparte cinzenta da cadeira de escritório que antes houvera alí, e do corpo da cadeira quatro pernas esguias alcançavam o chão coberto por um tapete macio que antes também não estava alí. Era tudo diferente e familiar, e Renato não sabia se ria ou gritava. Era um sonho estranho e vívido, e não estava bem certo de que queria acordar.

Acalmou-se. Respirou fundo. Abriu as cortinas e olhou pela janela. A brisa fresca que invadiu o quarto o surpreendeu, mas a paisagem inesperada que encontrou tomou seu fôlego a ponto de torná-lo absorto à brisa. A vista da rua próxima, que antes cruzava dois andares abaixo de sua janela, havia sido substituída por um tapete de névoa que tornava impossível saber o que havia debaixo, se é que havia mesmo alguma coisa. Aqui e ali, na distância, torres delgadas perfuravam a névoa, tornando todo o cenário ainda mais surreal. O céu muito azul contrastava com nuvens macias que o emolduravam e pareciam mover-se preguiçosamente. O sol não estava visível, mas as sombras projetadas pelas torres na névoa faziam advinhar que era ainda cedo na manhã, ou talvez um entardecer estranho. Renato não conseguia parar de olhar.

Havia pássaros na distância, mas estavam tão distantes que deveriam ser grandes demais, ou então o dia claro melhorava sobremaneira a sua visibilidade. Fixou o olhar nas uma, duas, três torres que conseguia distinguir. Eram diferentes entre si. Uma delas era mais escura, e mais grossa, enquanto as outras duas eram mais finas. Uma delas terminava em algo que parecia com uma gota e seu telhado pontiagudo espetava o ar. A outra torre delgada, assim como a escura, terminavam em pátios com améias distintos entre si em diâmetro e desenho. Tanta diferença com tanta riqueza de detalhes inicialmente absorveu tanto a Renato que ele não conseguia pensar em nada, mas logo depois se colocou a pensar em sua vida -- ou em como sua vida deveria ser ao acordar, e não estava sendo.

Pensou no trabalho, no emprego de programador que ele não chegava a gostar, mas que parecia uma maneira relativamente fácil e segura de pagar as contas. Pensou se a esta hora estaria atrasado para o mesmo, se é que o tempo passava aqui da mesma forma que... que em seu mundo. Começou a duvidar sequer de que estivesse acordado, e o pensamento de que poderia em breve ser acordado pelo despertador provocou-lhe um pouco de tristeza. Ao mesmo tempo que tudo aquilo era assustador, era também estranhamente reconfortante. Lembrou-se então de seus amigos, alguns que trabalhavam no mesmo lugar que ele, outros que via apenas em suas horas de diversão fora do trabalho. Não sabia se sentia falta deles. Provavelmente sentia. Mas também se perguntava se ficaria triste demais se fosse possível nunca mais voltar para aquele outro mundo. Aquele em que parecia estar o fazia sentir tão melhor, mesmo que fosse perturbadoramente diferente e estranho e imprevisível...

Uma grande sombra, que pareceu ter vindo de cima do lugar onde estava, se projetou escurecendo a névoa enquanto se afastava -- ainda muito perto -- e o despertou de seus pensamentos. Olhou instintivamente para cima, e a visão de um pássaro tão enorme de penas tão prateadas o deixou tomado de susto e temor, mas também de admiração. E foi então que sentiu que o pássaro sabia que ele estava olhando para ele. Não sabia como, mas sabia que ele sabia, e isso o fez assustar-se demais para permanecer na janela. Voltou de um só pulo para dentro do quarto e acabou por tropeçou na cadeira, que foi ao chão com um barulho abafado pelo tapete. Segurou-se no armário para não cair, e respirou fundo. O ar tinha um cheiro tão bom! Foi então que ouviu a voz que vinha de fora da porta, aguda de um modo pueril, ainda que firme:

- "Não derrube seu quarto inteiro, Andiel!"
A voz foi interrompida, ou se interrompeu, com uma risada cristalina e aguda. E então continuou.
- "Estou esperando você! Venha logo. Quero saber o que você queria comigo quando me mandou aquela carta."

Renato engoliu em seco. Ficara tão paralisado pela idéia de que havia mais alguém ali, que nem se apercebera de ter sido chamado por outro nome. Pensou em se esconder, ou fingir que não estava ali -- apesar do barulho que fizera tropeçando nos móveis -- mas percebeu que nada disso fazia sentido. Pensou então em responder alguma coisa através da porta, mas não conseguiu pensar em nada, e logo depois descobriu que estava assustado demais para falar. Tentou retomar o fôlego e alisar as roupas, e descobriu então que não estava vestido. Não prestou atenção ao fato de que sua pele branca e sua púbis eram agora desprovidas de qualquer pêlo, como as de uma criança. Atrás da porta que restara aberta no armário, pôde entrever que lá havia várias roupas com tons de verde e castanho e púrpura e couro. Nem bem pôde dar mais um passo em direçâo à porta aberta do armário, tomado pela idéia de vestir-se antes de fazer qualquer outra coisa, Renato ficou paralisado com a próxima coisa que ouviu através da porta.

- "Ora! Responda logo, seu sonhador tolo. Não é só porquê sou um Tilitíg que tenho que ser paciente. Venha logo ou vou arrancar você daí pelas asas!"

"Asas!?", pensou Renato, um instante antes de encontrar o espelho.


***


Eles me acordaram me soprando esta história, que não é parte das três narrativas básicas da Queda do Oeste mas ainda assim se encaixa à história de uma forma que ainda me é misteriosa. Os outros capítulos estão sendo vertidos para o papel, mas ainda não me contaram o que vai acontecer depois do terceiro capítulo. Confio que vão contar em breve, se eu for um bom menino e escrever o que já me foi dito...

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2 Comments:

Blogger Patr�cia said...

Gostei grandão, meu bem!
=*

5/07/2008 02:14:00 PM  
Blogger Daniel Duende said...

Que bom que você gostou, meu amor! =*

Ganhei o dia com este elogio.

Entrego o segundo capítulo hoje, logo que terminar meu trabalho.

5/07/2008 08:31:00 PM  

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