18 de abr de 2008

Delianárra, fragmento 2

"Ao final do dia, já me aproximava conforme imaginado das moradas verdes do povo Eneirah. Sentí pela primeira vez o perfume das matas Eneirah, que não sentí em nenhum outro lugar. Seria injustiça compará-lo com tantos outros perfumes e odores que conhecí em minhas andanças. Basta-me dizer que é bom, muito bom, e único. Cheiro de mata e de flores e de absoluta tranquilidade. É o perfume do lar de um povo que sabe falar as línguas de todos os seus sentidos.

Há uma controvérsia tola entre as outras gentes a respeito dos Eneirah. Perguntam-se, e nestes questionamentos se destacam os homens jovens e velhos de Fínne e um ou outro pequenino que tenha vivido tempo demais entre eles, se serão os Eneirah plantas ou gentes. A pergunta é tola, e só faz sentido quando se pensa que temos que ser uma coisa ou outra, ou alguma das duas, para ser. Os Eneirah são simplesmente Eneirah, e mesmo isso é uma tentativa de colocar em palavras tolas a absoluta simplicidade da natureza deste povo. Aprendí um bocado em minha curta estada entre eles.

Inicialmente a floresta se adensava. O tom de verde das folhas partiu do tom forte e escuro que antes reinava e diversificou-se alegremente em verdes claros como a relva ao sol e verdes profundos como só aqueles verdes conseguem ser. Já me referí ao perfume que tomou o ambiente, e embora pudesse ver brotando no chão da mata, e nos troncos das enormes árvores, e mesmo nas vinhas que abraçavam árvores entre si, tantas flores de tantas cores, sabia que não era apenas delas que vinha o perfume. Era o cheiro dos Eneirah, pois logo vim a me certificar que de fato cheiram muito bem estes sábios seres. Caminhei com pés leves, reverenciando as árvores que talvez estivessem a me observar. Não me refiro aos espíritos das árvores das matas do povo invisível, ou às Dríades. A bem da verdade, os próprios Eneirah já deviam estar me observando agora, se aqueles Eneirah se dessem à curiosidade de saber quem passa entre eles.

O Povo Eneirah vive muito, e por vezes concebe seus filhos da união de amor e companheirimo entre dois deles. Mas muitos deles nascem também dos frutos das árvores da floresta, e também muitos deles, quando assim decidem, deitam-se em algum lugar que lhes apraz e cria raízes por alguns anos. Diz-se, e sobre isso descobrí a verdade depois, que é possível a um Eneirah ser morto pela tristeza, pelo aço e pela magia. Mas mesmo a estes ainda resta a transcendência verde, pois o povo Eneirah acredita que de seu corpo brota sempre um outro corpo, e que todos os frutos e todas as decorrências da natureza e do curso da vida carregam em sí aquilo que as gerou. Desta forma, os Eneirah não apenas são gentes que caminham e cantam e cultivam jardins e fazem perfumes e dançam e amam. São também as árvores de sua morada, e por vezes também os animais. Os filhos também se concebem como parte daqueles que os geraram, e aqueles que os geraram também acreditam ser os filhos, e todos eles acreditam ser ao mesmo tempo os frutos de uma só árvore, cujo nome porventura é Eneirah.

Conhecí Eneirah e seus frutos, e entre eles fiquei vários dias em busca da solução para o mistério que me foi segredado pela Grande Coruja. E também entre eles finalmente se curou a ferida que me foi feita pela Mantícora, embora posteriormente ela tenha voltado a doer quando me aproximei da Floresta das Espiras em minha caminhada à Casa do Rochedo Negro onde vivem as três senhoras do rochedo. Mas isto aconteceu depois, e sobre os Eneirah ainda há uma coisa que preciso dizer: Eu não sabia no momento, mas eles me contaram a solução da grande pergunta que nem sequer havia formulado naqueles dias. Os sábios Eneirah, que são planta, pássaro, gente, perfume, música e uma morada inteira, onde fui muito bem recebido, sabiam a resposta da pergunta que eu ainda desconhecia."


(nunca é demais lembrar que os fragmentos das três histórias que são uma não estão sendo publicados em nenhuma ordem particular, além da ordem em que me são contadas e escritas. Nunca fui muito bom em colocar as coisas em seu lugar certo, mas adoro reuní-las e ver como ficam bonitas...)

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2 Comments:

Anonymous Volnei Jr. said...

Opa beleza Daniel.. estava procurando imagens de fadas e deuendes para o meu blog... até que encontro o seu...hehe
e fique pensando quando li alguns trechos dele (principalmente o do dia "14.2.07 Vendo fadas e duendes pela janela do carro... (ou, indo d'Aquí para Lá)") como a gente acaba encontrando como que por sincronicidade os iguais..rs
até nossos layouts..haha
mas é, legal teu blog, espero poder ter contato com um irmão "d'outro lado"... =)

abraço!

4/20/2008 02:51:00 PM  
Blogger Daniel Duende said...

Olá meu caro Volnei.
Muitos vem parar aqui em busca de imagens de fadas e duendes. O Google gosta de enviá-los para cá. Curiosamente, apesar da presumível identificação (eu me identifico com quem se identifica com duendes, logo imagino que seja natural que pessoas que buscam imagens deles se indentifiquem também comigo), você é o primeiro a deixar um comentário.
São estas felizes coincidências-não-coincidências da vida.
Seja muito bem vindo. Continuamos nos falando, e espero que goste do que encontrou e ainda vai encontrar por aqui.

Quanto ao trecho acima, pretendo reescrevê-lo para que fique mais próximo ao modo como originalmente me ocorreu (e tirar o excesso de explicações que meu hemisfério cartesiano insistiu em colocar). Espero que goste do resultado final quando sair.

Seja sempre bem vindo.
Abraços do Verde.

4/21/2008 03:20:00 AM  

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